31 maio 2011

Alcoolismo na Policia Militar

Rígida disciplina leva policial ao alcoolismo
O alcoolismo entre policiais militares e civis há muito já desperta a preocupação de integrantes dessas instituições. No caso da PM, o comando reconhece a existência do problema e oferece serviços de apoio a dependentes de álcool. A média mensal de atendimentos no Gabinete de Psicologia da Polícia Militar varia de 10 a 15 homens, a maioria de baixas patentes (soldados e cabos). O alcoolismo é, inclusive, responsável por 5% das aposentadorias na corporação. De acordo com o coronel-médico José Férrer Duarte, que, desde 1987, tem interesse pelo tema, a PM tem muito cuidado para que essa pequena parcela de dependentes não venha a manchar a imagem da instituição. Soldados entrevistados garantem que a rígida disciplina é o principal motivo que os levou à dependência. Na Polícia Civil, sindicalistas admitem que o problema é preocupante e reclamam da falta de um departamento de recursos humanos para tratar adequadamente os policiais doentes.



ENTREVISTA/W. policial dependente do álcool

"A bebida é o nosso escape"O soldado W. (inicial fictícia), 38 anos, fala em tom de voz alto e está sempre nervoso. Há 12 anos na Polícia Militar, garante que ficou dependente de álcool depois de ter entrado na corporação. Para ele, o estresse e o risco do trabalho nas ruas, além do difícil relacionamento entre superiores e subordinados, nos quartéis, são fatores que contribuem para levar um policial a procurar refúgio na bebida alcoólica. W. diz que se sentia oprimido e via a cachaça como um prazer, uma maneira de esquecer a rotina desgastante da vida militar. Submetido a tratamento médico, psiquiátrico e psicológico, o soldado ainda não conseguiu largar o vício, mas já tem consciência de que ele só atrapalha. Veja, a seguir, a entrevista.
Jornal do Commercio - O que o levou à dependência do álcool?
W. - Sem dúvida, o meu trabalho estressante na Polícia Militar foi o principal responsável por isso. Por causa dele, passei a ver a bebida como um escape, uma espécie de fuga. Isso também acontece com alguns companheiros meus.
JC - O que é mais desgastante na função policial?
W. - Não são apenas as rondas ostensivas que estressam. O sistema interno na corporação é muito opressivo e também contribui para essa fuga. A opressão deixa a gente nervoso e abalado. Às vezes, saía para a rua com mais medo dos meus superiores do que dos próprios bandidos.
JC - Quando você começou a beber?
W. - Uns oito anos após ter entrado na Polícia Militar. Depois de largar do serviço, corria para uma barraca e bebia cachaça, sozinho.
JC - Quando a situação chegou ao limite?
W. - De uns cinco anos para cá. Teve uma fase em que eu acordava e dormia com cachaça. Cheguei ao batalhão cheirando a álcool. Por causa disso, fui punido umas quatro vezes e até no xadrez fiquei.
JC - Quem o incentivou a procurar o Gabinete de Psicologia da PM?
W. - Tinha ouvido falar do trabalho das psicólogas e, como andava me sentindo muito mal, pedi a meu comandante que me encaminhasse.
JC - Já procurou outro tipo de ajuda?
W. - Passei seis meses no grupo dos Alcoólicos Anônimos e adorei. Nesse período, consegui parar de beber. Só que depois tive um problema - prefiro não revelar - e, infelizmente, tudo voltou ao que era antes.
JC - E agora, como está encarando esse tratamento?
W. - Estou me sentindo mais aliviado, principalmente com a terapia de relaxamento dada no Gabinete de Psicologia, embora o estresse ainda seja algo muito presente na minha vida. Tenho procurado beber menos, mas sei que é dificílimo para um alcoólatra deixar o vício. Apesar das dificuldades, acredito que vou melhorar. Pelo menos agora, chego em casa e minha filha de 10 anos não corre para o quarto, com medo de mim. Isso era uma coisa horrível e me fazia sofrer.

Dependência atinge PM de baixa patente

Eles são relativamente jovens, na faixa etária entre 30 e 40 anos, ocupam baixas patentes e executam serviços de policiamento ostensivo, vivendo sob permanente tensão e estresse. Esse é o perfil de policiais militares dependentes de álcool, detectado pelo Gabinete de Psicologia e o Serviço Social-Médico do Centro Médico-Hospitalar (CMH) da corporação. Por mês, há uma média de 10 a 15 homens se submetendo a tratamento psicológico em conseqüência do alcoolismo, responsável, também, por 5% das aposentadorias na Polícia Militar. "Esses PMs terminam sendo afastados de suas funções e obrigados pelos comandantes dos quartéis a se tratarem porque já viraram um problema para as unidades", atesta a primeiro-tenente e psicóloga Tereza Cristina Gouveia, chefe do Gabinete de Psicologia.
O alcoolismo entre policiais militares há muito vem preocupando integrantes da corporação. Em 1987, o então capitão José Férrer Duarte escolheu esse tema para a monografia que desenvolveu na conclusão do Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais. Na época, chegou a sugerir a criação de um centro de assistência aos dependentes de álcool na PM.
Por falta de pessoal, o sonho dele não foi realizado. Hoje, coronel-médico e diretor de Saúde do CMH, Duarte ainda acredita na possibilidade de organizar o espaço. "O alcoolismo atinge mais policiais do que se imagina e a questão é que, muitas vezes, as vítimas não admitem sofrer do mal", observa.
DIFICULDADES - Mesmo sem dispor do centro, o coronel acredita que a PM tem enfrentado a situação da melhor maneira possível. A assistente social do Serviço Social-Médico do CMH, Edilene Albuquerque Castro, há 16 anos na corporação, também concorda. No entanto, o seu trabalho ainda esbarra em dificuldades.
No ano passado, por exemplo, Edilene tentou elaborar uma pesquisa para identificar a quantidade de PMs dependentes de álcool em quatro batalhões. Ela decidiu fazer uma amostragem nas duas maiores unidades (em número de policiais) do interior e da capital. O resultado obtido, de apenas dois batalhões, não foi considerado satisfatório.
Do comandante do 2º BPM, em Nazaré da Mata, a assistente social recebeu resposta informando sobre a existência de 13 policiais com dependência alcoólica. No Batalhão de Radiopatrulha, duas companhias admitiram ter PMs sofrendo do problema, mas não revelaram a quantidade. "Nem sempre, os comandantes dos quartéis sabem reconhecer o policial alcoolista, principalmente porque muitos escondem a doença. Às vezes, só percebem quando chegam para trabalhar com sintomas de embriaguez", salienta.
Na pesquisa, Edilene quis saber se havia nos batalhões policiais faltando ao serviço, chegando atrasado, apresentando problemas no desempenho das funções, de indisciplina, ou dispensados por ordem médica. Segundo ela, esses fatores podem ser conseqüência direta do alcoolismo.
Para o assessor de imprensa da PM, tenente-coronel Antônio Neto, a questão do alcoolismo na corporação é semelhante à de qualquer grande empresa. "Temos 17 mil policiais, e o que ocorre aqui é reflexo do que acontece na sociedade", defende. O oficial garante que, apesar de a Polícia Militar fazer um trabalho para recuperar os integrantes com dependência de álcool, o número de PMs que são punidos por embriaguez em serviço é pouco. "Nem sempre, essa transgressão disciplinar significa que o policial é um alcoólatra", diz.
Bebida afasta soldado da convivência familiar

A família de um dependente de álcool ou de qualquer outro tipo de droga vive em permanente angústia. A estudante G.M. (iniciais fictícias), 18 anos, sabe muito bem o que é ter um pai alcoólatra. Cresceu vendo as constantes alterações de humor do soldado R.M. (iniciais também fictícias), 35 anos. "Ele já bebia antes mesmo de entrar na Polícia Militar, mas, nos últimos cinco anos, a situação se agravou", relata a jovem, que hoje pouco fala com o pai.
Preocupados com o risco que corria e poderia representar para a sociedade trabalhando no policiamento ostensivo, os parentes conseguiram transferir o soldado R.M. do batalhão onde era lotado para um outro órgão estadual, onde está executando funções burocráticas.
Segundo a estudante, o mínimo que o pai ingere de álcool já é suficiente para deixá-lo embriagado e nervoso. "Ele bebe mais nos finais de semana, ou quando chega cedo em casa", conta G.M., que, apesar de considerar o problema horrível, acostumou-se com a ausência paterna. "Meu pai até pergunta se eu e minha irmã estamos indo bem nos estudos, mas, no fundo, não é presente e nem carinhoso. A minha mãe é quem termina preenchendo esse lado", admite a adolescente.
TIRO - Das situações mais dramáticas, a jovem lembra que o pai, embriagado, chegou a disparar um tiro dentro da própria casa. "Mas não teve a intenção de atingir nenhuma de nós", ressalta. A família tentou encaminhá-lo para o Gabinete de Psicologia da Polícia Militar, mas o soldado insiste em dizer que não tem problemas. "A gente também não pode fazer qualquer comentário sobre o assunto que ele logo se sente atingido", comenta.
A jovem, que estuda no Colégio da Polícia Militar, diz saber de outros exemplos de policiais com dependência alcoólica na corporação, por colegas de aula. "Acho que a vida militar favorece muito esse problema por conta das exigências. O PM se torna agressivo e a fuga é através da bebida", afirma G.M..
Policial civil também sofre com dependência alcoólica

O número de policiais civis com dependência alcoólica também é considerável, a exemplo da Polícia Militar. Quem faz o alerta é o presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Henrique Leite. Ele não dispõe de nenhum estudo sobre o problema, mas fala com a experiência de quem conhece a instituição, há mais de uma década. "O estresse do exercício da função, a mudança de locais de trabalho e as dificuldades financeiras levam o policial ao alcoolismo", teoriza o presidente do Sinpol.
Para Henrique Leite, no entanto, a questão não é a Polícia Civil ter integrantes com dependência alcoólica. O mais grave, afirma ele, é a inexistência de um departamento de recursos humanos na Secretaria da Segurança Pública (SSP) para dar apoio adequado aos doentes. "O tratamento dado é a punição, muitas vezes equivocada. O policial alcoólatra é visto pelo comando como um relapso e termina sendo mandado para o Sertão", critica.
Henrique Leite diz que o caminho mais fácil, para a SSP, é deixar o policial civil com dependência alcoólica cometer algum delito, pondo a sociedade em risco, e depois demiti-lo. "A nossa cúpula, PAGINA: 3cid-20.apm FINAL DA COLUNA: 1infelizmente, trata o problema do alcoolismo com repressão", enfatiza.
O vice-presidente do Sinpol, Cláudio Marinho, concorda com o colega. "Há muito tempo, nós pedimos a criação de um departamento de recursos humanos para dar assistência ao policial civil em todos os níveis", ressalta, observando que um policial, seja ele militar ou civil, não pode ir para a rua combater a criminalidade estando estressado ou embriagado.
Marinho elogia a iniciativa da Polícia Militar de fazer um trabalho de apoio ao PM com problema de dependência alcoólica. "Tirando o salário e a escala de serviço da corporação, tudo na PM é melhor do que na Polícia Civil", afirma o sindicalista.
CORREGEDORIA - O corregedor da Polícia Civil, delegado Antônio Cavendish, assegura nunca ter aberto uma sindicância ou processo administrativo contra policial por causa de embriaguez. "Estou aqui desde setembro do ano passado e posso assegurar que isso não ocorreu. Quando um agente chega embriagado no serviço é feita a ocorrência e dada a punição. E só", explicou.
Cabo afirma que a rigidez do regime o levou ao alcoolismo

O cabo Z. (inicial fictícia), 41 anos, começou a beber na adolescência, mas não tem dúvida de que os seis meses em que permaneceu numa escola de recrutas da Polícia Militar significaram o primeiro passo para levá-lo à dependência alcoólica. "A vida era muito rígida e, ainda por cima, tive que me mudar para o interior", lembra. Há dois meses afastado do batalhão para se tratar, o militar assegura que decidiu procurar ajuda por iniciativa própria. "Eu mesmo pedi a meu comandante para me encaminhar à psicóloga", conta, com a voz trêmula.
Ele diz que, na época da escola de recrutas, aproveitava o pouco tempo livre de que dispunha para tomar cachaça com alguns colegas de turma. "A gente acordava às 5h da manhã, passava o dia fazendo atividades e, à noite, tinha que dormir às 21h. Nos finais de semana, ainda era escalado para trabalhar", relata, numa tentativa de justificar-se.
Segundo o militar, o problema agravou-se nos últimos cinco anos, quando passou a beber aguardente quase todos os dias. Apesar disso, garante nunca ter bebido em serviço. "Isso não, mas já cheguei embriagado no quartel e meu superior percebeu e me puniu", admite.
SÍNDROME DA ABSTINÊNCIA - Z. não conseguiu parar de beber porque sofre quando evita a cachaça. "Fico trêmulo, minha voz é confusa e tenho dificuldade de organizar as idéias. Mas o pior de tudo é a insônia. Nem com Diazepan durmo", relata.
Além dos problemas enfrentados no trabalho, o cabo Z. vinha tendo dificuldades de relacionamento com a mulher e os dois filhos, de 21 e 15 anos. Também começou a contrair dívidas em conseqüência do alcoolismo. "Minha família pede muito para que eu saia dessa e isso me sensibiliza. Imploro a Deus para conseguir".





Um comentário:

  1. Com certeza o Regime militar é o causador dessa doença.regime que te torna engasgado e com os ouvidos em forma de trombones, ou seja, não tens o direito de fala e só de ouvinte.fica difícil, cada um corre pra seu pseudo acalanto.

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