31 maio 2011

Bebedeira estimula surto de violência

BEBEDEIRA  ESTÍMULA  SURTO  DE  VIOLÊNCIA



Em 2008, pelo menos 27% dos casos de agressões domésticas e 20% dos homicídios foram cometidos por quem havia ingerido álcool ou drogas

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Garrafinha de pinga chega a custar R$ 1,50: catalisador de agressões
 
O álcool e as drogas são combustíveis da violência. Mulheres, crianças e homens longe das mesas dos botecos e dos copos acabam vítimas dos efeitos da bebida, da cocaína ou de outros entorpecentes. Nada menos que 27% dos casos denunciados de agressão física cometida dentro de casa em 2008 tinham como agressor alguém que havia consumido doses de álcool ou usado substâncias ilícitas. A mesma característica alcança quase 20% dos homicídios praticados no Distrito Federal no ano passado.

Os números fazem parte de um levantamento inédito e exclusivo feito pela Polícia Civil do DF (PCDF) nos boletins de ocorrência a pedido do Correio. Mostram a relação entre a criminalidade e o uso de bebida ou de entorpecentes. Para alguns, os índices podem até parecer pequenos. Mas não se engane. A realidade é mais alarmante, segundo a própria polícia. “Muitas vezes só descobrimos a motivação do crime com o avançar das investigações, o que não consta no boletim”, admite o diretor-geral da PCDF, o delegado Cléber Monteiro.
Além disso, alerta a psicóloga Angela Branco, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB): “Muitos dos episódios de violência não são reportados. No caso de agressões contra a mulher, a vítima não quer expor o companheiro. Em outras situações, é comum o medo de represália. Vivemos em uma cultura do medo”.

Dos 428 casos de maus-tratos que chegaram ao conhecimento da polícia em 2008, 15,65% tinham como catalisador o álcool ou as drogas. No caso das lesões corporais dolosas — quando há intenção de cometê-las —, a relação aparece em 17,22% das 9.009 ocorrências. O álcool e as drogas também foram responsáveis por 14,7% dos estupros do ano passado: dos 279 registros, os homens estariam bêbados em 38 e drogados em três. Os números se baseiam nas ocorrências de 2008 das 31 delegacias do DF.

Sem beber, o ex-marido de Solange (nome fictício) era “um amor de pessoa”. “Quando bebia, morria o homem e entrava em ação um monstro. Ele batia em mim, bagunçava a casa, quebrava tudo”, lembra a dona-de-casa de 27 anos, moradora do Varjão. Ela ainda tem medo. Solange e o companheiro decidiram oficializar o relacionamento depois de 13 anos juntos. Mas, no dia do casamento, ele exagerou na bebida e bateu nela. Há um ano e meio, a mulher desistiu de tentar mudá-lo. “Hoje ele vive bebendo na rua”, conta ela. E não paga pensão aos três filhos que deixou em casa. “Pense numa pessoa boa… É ele. O álcool o transformou”, lamenta a mulher.

Preço baixo
O levantamento da PCDF reforça um faceta perigosa do álcool. Cachaças vendidas em garrafinhas de pitchula têm feito a cabeça de muita gente no DF. A unidade de 500ml de bebidas com 39% de teor alcoólico sai por R$ 1,50, às vezes por menos. “Tem gente que dana a beber esse negócio pra criar coragem de fazer besteira. Eu não vendo mais dessas”, conta Manoel Antônio José, 65 anos, dono de um boteco no Paranoá. Ele passou a fazer redes de pesca para vender e compensar a retirada das pingas baratas da prateleira. “Essas danadas a gente não tem aqui também não. Quero é distância delas!”, emenda a proprietária de outro comércio ali perto.

Nem o poder público nem a família ou a igreja conseguiram livrar um garoto de 17 anos das drogas e, consequentemente, do crime. Ele cumpre medida socioeducativa no Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago). Segundo a mãe, de 56 anos, foi parar lá porque roubou e sequestrou. “Ele era valente sem a droga também. Mas quando usava quebrava até carro de polícia e trocava tiro com os policiais”, relata a moradora do Varjão. “Ele é um menino bom, ia de casa para a igreja. Mas com a droga virava outra pessoa. É triste. Estou achando que só carinho e amor de mãe não adiantam mais”, desabafa a mulher.

No DF, segundo o levantamento, os assassinatos têm relação clara com o consumo de álcool e de drogas. Pessoas bêbadas ou drogadas estavam envolvidas em 19,42% dos homicídios do ano passado. Isso quer dizer que a cada cinco homicídios, um envolveu o uso de bebida alcoólica ou entorpecentes. No caso das tentativas de homicídio, a porcentagem é de 15,77% — de um total de 1.002 ocorrências, 101 envolvem álcool e 57, drogas. “A bebida influencia quando é consumida pelo criminoso e também pela vítima. Uma pessoa fora de seu estado natural por causa da droga ou da bebida pode precipitar a violência e se colocar em risco de um homicídio”, observa Gabriel Andreuccetti, pesquisador do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa).

Um esbarrão
Eduardo Gomes, delegado de plantão da 6ª Delegacia de Polícia, que atende as regiões do Paranoá e do Itapoã, conhece bem a conexão entre o uso das drogas, ilícitas ou lícitas, com a criminalidade. Ele lembra a investigação de um homicídio há pouco mais de dois meses em que um homem só atirou porque havia bebido. O motivo do crime teria sido um esbarrão de um na namorada do outro. “Não consegui nem colher o depoimento dele. Ele não falava nada com nada”, afirma o delegado. Na manhã seguinte ao crime, o acusado acordou arrependido na cela.

Os números obtidos com exclusividade pelo Correio comprovam, na avaliação de Gomes, o que todo agente de segurança está cansado de saber: o problema social do álcool e das drogas desemboca no crime. “O cara bebe para se distrair. Mas quando bebe, se não apronta na rua, vai aprontar quando chegar em casa”, conclui. 



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