28 maio 2011

Dr. Drauzio Varella - Alcoolismo




Do ponto de vista médico, o alcoolismo é uma doença crônica, com aspectos comportamentais e socioeconômicos, caracterizada pelo consumo compulsivo de álcool, na qual o usuário se torna progressivamente tolerante à intoxicação produzida pela droga e desenvolve sinais e sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada.
Fatores genéticos
Sem desprezar a importância do ambiente no alcoolismo, há evidências claras de que alguns fatores genéticos aumentam o risco de contrair a doença.
O alcoolismo tende a ocorrer com mais freqüência em certas famílias, entre gêmeos idênticos (univitelinos), e mesmo em filhos biológicos de pais alcoólicos adotados por famílias de pessoas que não bebem.
Estudos mostram que adolescentes abstêmios, filhos de pais alcoólicos, têm mais resistência aos efeitos do álcool do que jovens da mesma idade, cujos pais não abusam da droga.
Muitos desses filhos de alcoólicos se recusam a beber para não seguir o exemplo de casa. Quando acompanhados por vários anos, porém, esses adolescentes apresentam maior probabilidade de abandonar a abstinência e tornarem-se dependentes.
Filhos biológicos de pais alcoólicos criados por famílias adotivas têm mais dificuldade de abandonar a bebida do que alcoólicos que não têm história familiar de abuso da droga.
Intoxicação Aguda
O álcool cruza, com liberdade, a barreira protetora que separa o sangue do tecido cerebral. Poucos minutos depois de um drinque, sua concentração no cérebro já está praticamente igual à da circulação.
Em pessoas que não costumam beber, níveis sangüíneos de 50mg/dl a 150 mg/dl são suficientes para provocar sintomas. Esses, por sua vez, dependem diretamente da velocidade com a qual a droga é consumida, e são mais comuns quando a concentração de álcool está aumentando no sangue do que quando está caindo.
Os sintomas da intoxicação aguda são variados: euforia, perda das inibições sociais, comportamento expansivo (muitas vezes inadequado ao ambiente) e emotividade exagerada. Há quem desenvolva comportamento beligerante ou explosivamente agressivo.
Algumas pessoas não apresentam euforia, ao contrário, tornam-se sonolentas e entorpecidas, mesmo que tenham bebido moderadamente. Segundo as estatísticas, essas quase nunca desenvolvem alcoolismo crônico.
Com o aumento da concentração da droga na corrente sangüínea, a função do cerebelo começa a mostrar sinais de deterioração, provocando desequilíbrio, alteração da capacidade cognitiva, dificuldade crescente para a articulação da palavra, falta de coordenação motora, movimentos vagarosos ou irregulares dos olhos, visão dupla, rubor facial e taquicardia. O pensamento fica desconexo e a percepção da realidade se desorganiza.
Quando a ingestão de álcool não é interrompida surgem: letargia, diminuição da freqüência das batidas do coração, queda da pressão arterial, depressão respiratória e vômitos, que podem ser eventualmente aspirados e chegar aos pulmões provocando pneumonia entre outros efeitos colaterais perigosos.
Em não-alcoólicos, quando a concentração de álcool no sangue chega à faixa de 300mg/dl a 400 mg/dL ocorre estupor e coma. Acima de 500 mg/dL, depressão respiratória, hipotensão e morte.
Metabolismo do álcool
O metabolismo no fígado remove de 90% a 98% da droga circulante. O resto é eliminado pelos rins, pulmões e pele.
Um adulto de 70kg consegue metabolizar de 5 a 10 gramas de álcool por hora. Como um drinque contém, em média, de 12 a 15 gramas, a droga acumula-se progressivamente no organismo, mesmo em quem bebe apenas um drinque por hora.
O álcool que cai na circulação sofre um processo químico chamado oxidação que o decompõe em gás carbônico (CO2) e água. Como nesse processo ocorre liberação de energia, os médicos recomendam evitar bebidas alcoólicas aos que desejam emagrecer, uma vez que cada grama de álcool ingerido produz 7,1 kcal, valor expressivo diante das 8kcal por grama de gordura e das 4kcal por grama de açúcar ou proteína.

Usuários crônicos de álcool costumam nele obter 50% das calorias necessárias para o metabolismo. Por isso, freqüentemente desenvolvem deficiências nutricionais de proteína e vitaminas do complexo B.

O álcool e o coração


Quando perguntam se beber faz bem para o coração, nós, médicos, ficamos numa posição difícil.
Na década de 1930, ao autopsiar alcoólatras com cirrose, um grupo de patologistas teve a atenção chamada para a relativa ausência de placas de aterosclerose nas artérias. O álcool dissolveria as placas? - especularam eles.
Nos anos 1990, pesquisas epidemiológicas reforçaram as bases do que se convencionou chamar de "paradoxo francês": a baixa incidência de doenças cardiovasculares na França, apesar da dieta rica em gorduras característica dos franceses. O hábito do vinho às refeições, universal na França, foi adotado como explicação para a existência desse paradoxo. Rico em certos flavonóides, o vinho teria propriedades antioxidantes que melhorariam a função vascular, reduzindo o número de ataques cardíacos e derrames cerebrais entre seus consumidores.
Três trabalhos importantes conduzidos nos últimos cinco anos, no entanto, sugeriram que essas propriedades protetoras não se restringiam ao vinho - um deles, publicado na prestigiosa revista "Circulation", com o título sugestivo de "Vinho, Cerveja e Destilados e o Risco de Infarto do Miocárdio: Uma Revisão Sistemática".
Recentemente, foi publicado o estudo mais completo sobre o tema. Nele, 38.077 homens de 40 a 75 anos, acompanhados no período de 1986 a 1998, enviavam a cada dois anos informações sobre seu estado de saúde, estilo de vida, consumo médio de álcool, concomitância do uso com as refeições e sobre o tipo de bebida ingerida: vinho tinto, branco, cerveja ou destilados.
Os autores padronizaram as quantidades de álcool presentes em um drinque de cada bebida da seguinte forma: uma lata de 355 ml de cerveja contém 12,8 g de álcool; um copo de 120 ml de vinho, 11 g de álcool e uma dose de 50 ml de destilado contém 14 g.
No período, ocorreram 1.418 casos de infarto do miocárdio. Abstêmios e os que bebiam em média menos do que 5 g/dia apresentaram risco semelhante. Nos demais, o risco de infarto caiu gradualmente de modo inverso ao total de álcool ingerido: no grupo de 5g a 10 g/dia, a redução de risco foi de 17%; no de 10g a 15g/dia, foi de 31%; e no que bebia 50 g ou mais por dia (quatro ou mais drinques diários) a redução foi de 52%.
Os níveis de redução de risco foram similares nas faixas etárias dos 40 aos 79 anos, e independentes do uso estar ou não associado às refeições. Nenhuma bebida mostrou ser superior a outra: vinho, cerveja ou destilados foram igualmente eficazes na prevenção de ataques cardíacos, fatais ou não.
Relação entre frequência e benefícios
Um dos achados mais importantes foi a confirmação de que a freqüência do uso guarda relação direta com os benefícios cardiovasculares: o grupo que bebia apenas uma ou duas vezes por semana apresentou redução de risco de 17%, contra 34% de queda entre os que bebiam de três a quatro vezes por semana. Esse achado está de acordo com trabalhos anteriores, como o projeto Monica conduzido na Austrália: homens que tomam nove ou mais drinques num único dia por semana apresentam duas vezes mais ataques cardíacos do que os abstêmios. Já os que tomam dois drinques diários, de cinco a seis vezes por semana, têm o risco diminuído em 64%.
A associação entre uso moderado freqüente de álcool e redução do risco de infartos do miocárdio, confirmada num estudo com 12 anos de duração, em que os 38 mil participantes enviaram mais de 200 mil relatórios para análise, não pode ser considerada cientificamente irrelevante.
Conduta médica
O que os médicos devem fazer então? Aconselhar os homens acima de 40 anos a beber todos os dias?
Os Alcoólicos Anônimos - grupo de auto-ajuda que presta serviços de grande alcance na recuperação de dependentes do álcool - consideram que existem pessoas já nascidas com tendência a abusar do álcool. Para elas, a única maneira de escapar do alcoolismo é ficar longe da bebida. Segundo eles, o número desses, que por razões bioquímicas se encontram em situação de risco para alcoolismo, é substancial: de 10% a 15% da população adulta (12 a 15 milhões de pessoas no Brasil).
Os efeitos nocivos do alcoolismo são muito graves para corrermos riscos: violência, trauma, acidentes de trânsito, cirrose, câncer, psicoses, dissolução do núcleo familiar (para enumerar alguns). Substituir uma doença por outras não é o que a sociedade espera da medicina.
Como diz Ira Goldberg, da Universidade de Columbia: "Se o álcool fosse uma droga recém-descoberta, nenhuma companhia farmacêutica ousaria comercializá-la para diminuir a incidência de doenças cardiovasculares. Nem os médicos a indicariam para reduzir de 25% a 50% do risco de infarto, às custas de milhares de mortes por outras causas".
Pessoalmente, estou de acordo, mas acho que os dados sobre a redução de risco de doença cardiovascular - principal causa de morte na sociedade moderna - associada ao uso de álcool em quantidades moderadas devem ser discutidos com clareza, especialmente com as pessoas que já tiveram infarto ou correm grande risco de tê-lo.
Desde que não percam o controle, elas podem se beneficiar do uso de bebidas alcoólicas, sem esquecer que deixar de fumar, controlar o diabetes, a pressão arterial, os níveis de colesterol e fazer exercício físico são medidas ainda mais importantes na redução do risco de doenças cardiovasculares, câncer e muitas outras, com a vantagem de não provocar ressaca nem dependência química.

Alcoolismo em mulheres


O metabolismo do álcool nas mulheres não é igual ao dos homens. Se administrarmos para dois indivíduos de sexos opostos a mesma dose ajustada de acordo com o peso corpóreo, a mulher apresentará níveis alcoólicos mais elevados no sangue.
A fragilidade aos efeitos embriagadores do álcool no sexo feminino é explicada pela maior proporção de tecido gorduroso no corpo das mulheres,
por variações na absorção de álcool no decorrer do ciclo menstrual e por diferenças entre os dois sexos na concentração gástrica de desidrogenase alcoólica (enzima crucial para o metabolismo do álcool).
Por essas razões, as mulheres ficam embriagadas com doses mais baixas e progridem mais rapidamente para o alcoolismo crônico e suas complicações médicas.
Diversos estudos documentaram os benefícios do consumo moderado de bebidas alcoólicas, tanto em homens como em mulheres. A margem de segurança entre a quantidade de álcool benéfica e a que traz prejuízos à saúde das mulheres, entretanto, é estreita e nem sempre fácil de delimitar:

Doenças do Fígado
Num dos estudos mais completos sobre o tema foram acompanhadas 13 mil pessoas durante mais de 12 anos. Nele foi possível demonstrar:
1) para todos os níveis de consumo alcoólico, as mulheres correm mais risco de desenvolver doenças hepáticas do que os homens;
2) para os mesmos níveis de ingestão, o risco de cirrose nas mulheres é três vezes maior;
3) mulheres que tomam de 28 a 41 drinques por semana (1 drinque = 1 copo de vinho = 1 lata de cerveja = 50 ml de bebida destilada) apresentam risco de cirrose 16 vezes maior do que o dos homens abstêmios.

Doenças cardiovasculares
Mulheres que ingerem um drinque por dia apresentam menor probabilidade de morte por doença cardiovascular. Esse benefício também é válido para as mulheres diabéticas.
No entanto, a análise dos dados de dezenas de milhares de mulheres acompanhadas no “Nurses’ Health Study” revelou que tomar dois ou três drinques diários aumenta o risco de surgir hipertensão arterial em 40% e a probabilidade de acontecer derrame cerebral hemorrágico. Nas mulheres que bebem mais do que três drinques por dia o risco de hipertensão arterial duplica.
Mulheres que abusam de álcool desenvolvem também miocardiopatias mesmo usando doses mais baixas do que os homens.

Câncer de mama
A meta-análise de seis estudos importantes mostrou que mulheres habituadas a ingerir de 2,5 a 5 drinques por dia, apresentam probabilidade 40% maior de desenvolver câncer de mama. Esse risco aumenta 9% para cada 10 gramas de álcool (cerca de 1 drinque) diárias.
Osteoporose
O efeito inibidor da remodelação óssea do álcool é fenômeno bem conhecido em ambos os sexos. Mulheres com menos de sessenta anos que tomam de dois a seis drinques por dia têm risco maior de fratura de colo de fêmur e de antebraço.

Distúrbios psiquiátricos
Todos eles são mais prevalentes em mulheres que abusam de álcool do que em homens que o fazem e do que em mulheres abstêmias. A única patologia mais freqüente no alcoolismo masculino é a personalidade anti-social.
A prevalência de depressão em mulheres que abusam de álcool é de 30% a 40%. Estudos demonstram que a maior parte dessas mulheres bebe como forma de se livrar dos sintomas associados a quadros de depressão primária.
Anorexia e bulimia estão presentes em 15% a 32% das que abusam de álcool.
Mulheres que abusam de álcool tentam o suicídio quatro vezes mais freqüentemente do que as abstêmias.
Conseqüências para o feto
A ingestão de álcool durante a gravidez pode provocar distúrbios fetais que vão do retardo de desenvolvimento à chamada síndrome alcoólica fetal, caracterizada por anormalidades físicas comportamentais e cognitivas. Consumo de álcool durante a gravidez é considerado a principal causa evitável dessas anormalidades na infância.

Conseqüências psicossociais
Problemas familiares são mais comuns entre mulheres que abusam de álcool (entre os homens são os problemas legais e aqueles relacionados com o trabalho). O alcoolismo torna as mulheres mais sujeitas a agressões físicas. Mulheres que consomem quantidades exageradas de álcool geralmente vivem com parceiros que também abusam da bebida.

O fígado e o álcool

São tantas as conseqüências desastrosas das drogas na vida de um dependente que, muitas vezes, os danos que causam nos diferentes órgãos são postos em segundo plano. O grande problema que seu consumo acarreta (não esquecer que o álcool também é uma droga), é que no início seu efeito é agradável. Depois, o organismo cria resistência e exige doses maiores para repetir a sensação de bem estar.
Certo grau de embriaguez é a reação normal do organismo posto em contato com o álcool, mas todos conhecemos pessoas que bebem quantidades enormes e aparentemente não se abalam. Essa resistência à ação do álcool é o primeiro passo para que a doença do alcoolismo se instale e o fígado entre em processo de deterioração.
O problema maior em relação ao álcool é que ele custa pouco, é facilmente encontrado e legalmente obtido. Além disso, tem o poder de libertar-nos das inibições que nos constrangem. O jovem começa a beber na adolescência, fica mais extrovertido, mas não imagina que isso pode significar o fim de sua vida em 20 ou 30 anos porque seu fígado foi irremediavelmente destruído.
QUAIS SÃO OS PRIMEIROS SINTOMAS DA CIRROSE :
Drauzio - Quais são os primeiros sintomas da cirrose?
Luiz Caetano da Silva – Quando os sintomas aparecem, a cirrose está instalada embora isso não queira dizer que seja fatal. No entanto, é possível perceber alguns sinais de que a doença está progredindo. A resistência física diminui. Os pés incham e surgem as aranhas vasculares pelo corpo e muitas vezes nas mãos, a chamada palma hepática, ou então, a pele e os olhos ficam amarelados pela icterícia. O mais comum, porém, é o diagnóstico ser feito por um exame de laboratório. Plaquetas baixas ou transaminase (dosagem no sangue de uma enzima que existe no fígado) alterada são indícios bastante significativos. Quando o fígado está inflamado ou sofrendo alguma agressão, essa enzima escapa da célula hepática e vai parar na corrente sanguínea.
Drauzio – Então você recomenda que os pedidos de exame de sangue de rotina incluam também a transaminase?
Luiz Caetano da Silva - A transaminase é um exame importantíssimo e deve ser indicado sempre que se fizer um exame de sangue. É um exame barato que permite diagnosticar doenças do fígado em fase relativamente precoce. O ideal seria pedir duas transaminases (TGP e TGO) e a Gama GT. Este último exame é importante para avaliar as condições em que se encontra o fígado de quem bebe.
Drauzio – Quando a Gama GT está elevada e você percebe que a pessoa exagera um pouco na bebida, você recomenda que ela pare de beber completamente?
Luiz Caetano da Silva - Se eu não conhecer bem o problema, prefiro pedir que ela suspenda temporariamente o álcool e os medicamentos indicados para combater artrite ou reumatismo crônico, que por acaso esteja tomando, já que alguns antiinflamatórios interferem nos resultados das transaminases.
Depois de um mês, o exame é repetido. Se as dosagens voltarem aos níveis normais, teremos identificado a causa do problema. Caso contrário, é preciso continuar investigando e provavelmente só uma biópsia possibilitará o diagnóstico.
Drauzio – Como é feita a biópsia?
Luiz Caetano da Silva – Atualmente, a biópsia hepática é um exame simples. O paciente fica deitado numa maca e o médico, orientado por ultra-som, introduz uma agulha no espaço intercostal (entre as costelas) e acompanha seu percurso até o fígado onde é colhido o material. São retirados apenas alguns miligramas de tecido que nada significam para um órgão de um quilo e meio. O passo seguinte é examinar esse material no microscópio. Até hoje, nenhum aparelho de imagem moderno conseguiu substituir o microscópio nesse tipo de análise.
Antes da biópsia, verifica-se o tempo de coagulação do sangue para afastar a possibilidade de hemorragia ou sangramento interno.
Como é necessário atravessar a cápsula do fígado, que é bastante enervada, e o músculo, o paciente recebe uma anestesia local, semelhante à anestesia troncular que os dentistas aplicam para extrair dentes ou tratar de nervos.

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