20 junho 2011

Alcoolismo - Carta a uma mulher alcoólatra


CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA 

Por Margaret Lee Runbeck


Se eu morasse em frente a sua casa, e observasse o quanto você luta corajosamente, mas sem esperanças contra sua doença, e se falasse com você às vezes, quando você não conseguisse me evitar, eu não ousaria lhe dizer pessoalmente o que agora vou lhe dizer por escrito. Você não deixaria dizê-lo, porque teria medo de mim. Julgaria que também eu faço parte da conspiração mundial contra você; ofender-se-ia por eu ter suspeitado de sua
secreta agonia.
Se nós nos encontrássemos, frente a frente, eu não acharia meio nenhum para lhe dizer o quanto gosto de você. Também não conseguiria lhe dizer que não encontro nada de desprezível ou ridículo em você. Não lhe daria nenhuma lição de moral, pois você não permitiria que lhe falasse a respeito de sua doença fatal. Nós duas faríamos de conta que ela não existe.
Assim sendo, preciso lhe escrever uma carta e pô-la num lugar seguro, onde você vai encontrá-la e possa escondê-la de sua família para depois lê-la com calma.
Nós duas começamos por ter alguma coisa em comum. Ambas sabemos que você está apavorada com o seu problema de bebida.

Você poderá ter qualquer idade; poderá ser uma universitária, uma jovem mãe, uma profissional admirada, a esposa do homem mais importante de sua comunidade ou uma avó que parece equilibrada. Você pode ser uma mulher extrovertida, animadora de qualquer festa, ou uma pessoa assustada, cheia de complexos de inferioridade e que, antes de tentar qualquer coisa, procura primeiro a coragem dentro de uma garrafa, não importa o quanto possa parecer fácil a outras pessoas o que terá que fazer.
Talvez você já tenha estado bebendo há meses ou mesmo anos, ficaria horrorizada e o negaria veementemente, se alguém a chamasse de alcoólica, mas secretamente está se perguntando se é ou não é. Posso responder-lhe já, pois, se você não pode controlar o seu modo de beber, se agora bebe mais do que admitiria, é provável que de fato seja uma alcoólica. Quando pronuncio esta palavra, me refiro a uma pessoa que sofre de uma doença. Uma enfermidade que progressivamente avança, diminuindo os horizontes de seu mundo, até que nada mais lhe reste de real, salvo o álcool.

Por você ser mulher, seus hábitos de beber são, com toda certeza, muito discretos, pois faz de tudo para escondê-los de todos, até de si mesma. E talvez tenha conseguido. Talvez ainda ninguém saiba que você beba, porque não ousa tomar nada em público, sabendo que este primeiro gole é o início de uma longa jornada para baixo.
Talvez você seja "uma alcoólica do quarto de dormir", e neste momento talvez eu a tenha seguido em pensamento para dentro de seu próprio quarto, onde pretende, com ares inocentes, pegar a garrafa escondida entre sua lingerie, ou numa caixa de chapéu lá naquela prateleira de cima. Pode até ser que a sua família ainda não tenha percebido nada, não suspeitou ainda de suas freqüentes "dores de cabeça". 




LIVRETE - CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA
"Literatura de Alcoólicos Anônimos, o caminho seguro".

Do outro lado, pode ser que você seja uma daquelas sombras que passam a vida na penumbra dos bares ou boates. Você pode ser o problema de sua vizinhança ou o escândalo de sua cidade. Sua família já pode ter desistido em tentar ocultar o seu problema; até mesmo seus filhos talvez não procurem mais encontrar desculpas para você. Ou ainda, pode até ter perdido sua família porque foi impotente no controle de sua bebida.

Mas, qualquer que seja o estágio no qual você se encontre agora, há esperanças. E não terá que se sentir culpada ou envergonhada, assim como não merece as acusações cheias de melindre, com que todos a aborrecem, tais como: "Se nos amasse, pararia de beber". Ou ainda: "Você só pensa em si mesma!". Ou: "Deveria se envergonhar, com toda a sua cultura e as oportunidades que já teve!". Acontece que você não é egoísta e nem um monstro imoral. Realmente, você é bem o oposto. Você é uma mulher que está gravemente doente.
Após ter compreendido isto, o próximo fato que terá de aceitar, é que está livre de qualquer culpa. Quando admitir que é uma alcoólica, não mais terá que se sentir culpada e castigada (além do castigo desumano que tem inflingido a si própria). Terá tão somente que reconhecer que está doente.
Sua enfermidade é perigosa. Ela pode destruir tudo ao seu redor. A não ser que seja detida a tempo, pode destruir a mente e o corpo de sua vítima. Porém, não é mais a sua culpa, seria como se você tivesse alergia ou diabete. O álcool é veneno para você se você for alcoólica.
Você não está sozinha nesta tortura indescritível que é o alcoolismo. Há muitos milhares de mulheres como você, em estágios primários ou em fase de desintegração. Dos 65 milhões de pessoas em nosso país (EUA) que tomam bebidas alcoólicas, mais do que 4 milhões são bebedores-problema e calcula-se que 650 mil destas pessoas são mulheres. É difícil contá-las com precisão, porque as mulheres, principalmente as donas-de-casa, conseguem
esconder melhor a sua condição do que os homens. Podem escondê-la pelo menos por algum tempo. Mas a mulher alcoólica sofre mais do que o homem; sua psique e sua constituição física são mais complexas e mais sensíveis. Ela tem mais dificuldade em suportar o desprezo que sente por si mesma e ainda sente muito mais acentuadamente o estigma social que uma sociedade ignorante coloca o alcoolismo. Certamente não tenho necessidade de lhe explicar isso. 

Desejaria de todo meu coração que tudo isso não passasse de mera teoria para você, mas sei que não é. A arrogância que isola um homem alcoólico dos outros, não atinge a uma
mulher como você, salvo mais tarde, quando já tenha morto dentro de seu corpo doente, o seu verdadeiro ser. Tenho ouvido mulheres alcoólicas dizendo: "Eu estava completamente morta por dentro. Nada podia me alcançar ou me ajudar."

É muito difícil para a maioria das mulheres admitir, mesmo que seja a si mesmas que são alcoólicas. Entretanto, este é o primeiro passo na conquista da sobriedade e da sanidade. Se você ainda não deu este primeiro passo, deixe que eu a ajude a dá-lo ainda hoje. Porque se conseguir admitir que o seu sentimento de pânico e sua ruína interior são sintomas de alcoolismo, você está preparada para receber ajuda. 



LIVRETE - CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA
"Literatura de Alcoólicos Anônimos, o caminho seguro".

A finalidade em escrever-lhe esta carta é lhe dizer que, apesar da sua doença desesperadora, você pode "reunir-se novamente à raça humana" e viver uma vida razoavelmente normal. Realmente, vai descobrir que esta nova vida pode até ser mais feliz do que a vida dos outros seres em geral. Não vai nem mesmo voltar ao tipo de vida que teve anteriormente e que suportou antes do alcoolismo tomar conta de você. Aquela vida não servia para você; você tentou escapar de sua frustração e seu desespero pela bebida, perdendo-se de uma vez. Esta outra vida da qual estou lhe falando, fica do outro lado de
uma grande experiência e pode encontrá-la a ser exatamente aquilo que Deus
teve em mente quando a criou.

É a respeito de Alcoólicos Anônimos que estou lhe escrevendo. A.A. conseguiu deter o alcoolismo de mais ou menos 250 mil (Calcula-se que o número de membros em 1995 seja de mais de 2.000.000. Destes, 43% são mulheres.) pessoas desesperadas e derrotadas, que puderam refazer as suas vidas. Se você tem a vontade e a humildade suficiente, e o sincero desejo de ser ajudada, isto não só fará com que a bebida que for consumir hoje seja a última para sempre, mas também lhe dará um novo tipo de vida, indescritivelmente boa e benéfica para todos que a observarem.
O público em geral tem pouco conhecimento de como A.A. funciona e, de fato, ninguém pode explicá-lo em termos intelectuais. Mas há bastante evidência de que é eficaz. Após admitir para si mesma que é impotente perante o álcool e se você realmente deseja ajuda com toda a sinceridade, coloque a sua vida nas mãos de um Poder Superior. Visto superficialmente, parece significar muito pouco, mas num plano emocional profundo, lá dentro da gente, onde se faz este pedido (endossado por todo o seu sofrimento até aqui), liberta-se a maior força que um ser humano pode experimentar. A presença desta força é
mais poderosa do que o álcool, que até aqui havia sido a necessidade principal, maior que o amor pela família, o auto-respeito e até mesmo o princípio de auto-preservação. Para os membros de A.A. não é mesmo muito fácil discutir esta tremenda experiência. Mas por outro lado, ela não precisa ser explicada; seus resultados estão evidentes e acima de qualquer
dúvida. Ninguém sabe como funciona, mas, que funciona, funciona.

Vamos falar um pouco sobre você mesma. Para começar: como você se tornou uma alcoólica? Claro que não simplesmente por capricho ou maldade. A medicina e a psiquiatria chegaram à conclusão de que muitas pessoas bebem excessivamente por causa de seus problemas emocionais. Conheci duas mulheres que se tornaram alcoólicas após terem perdido seus filhos, e muitas porque tiveram seus casamentos fracassados. A maioria dos alcoólicos são
perfeccionistas ou idealistas. Esperam realizar maravilhas em suas vidas, quando não conseguem viver dentro dos padrões de seus altos ideais, não conseguem também encarar suas desilusões a respeito de si mesmos.

Apesar do que outras pessoas geralmente possam pensar, os alcoólicos têm consciência terrivelmente sensíveis. Preocupam-se tanto com tudo, que não suportam a tensão e a angústia. Quando uma consciência desta natureza se une à incapacidade total para suportar a agonia da preocupação, surge o convite aberto ao excesso da bebida.

Os conflitos emocionais nos indivíduos super-sensíveis como você, se tornam tão insuportáveis que procuram uma fuga, que vai até a inconsciência total.
Em alguns alcoólicos um sentimento de inferioridade vindo da infância constrói um mecanismo de compensação que cria uma ânsia egoísta e insaciável pelo elogio e sucesso, que nunca é satisfeita com aquilo que recebe. Nas mulheres, o "ego" exagerado exige lisonjas e agrados constantes e, em alguns casos, romances contínuos. Em suas excessivas exigências por uma perfeição, a mulher frustrada às vezes acredita nas promessas enganosas do álcool, este cruel impostor.
Quando estas tensões emocionais extremas existem em adição a uma alergia física, a ruína alcoólica é inevitável. As pessoas bebem porque são infelizes e são infelizes porque bebem. O círculo vicioso está criado e progride até que não se possa mais dizer qual a causa e qual o efeito.

A libertação desta tortura atroz deve incluir tratamento, tanto para a obsessão emocional, como para a doença física. A psiquiatria e a medicina tem trabalhado juntas em milhares de casos, e em alguns, tem tido sucesso. Entretanto, o seu índice é decepcionantemente baixo. Costuma-se dizer que o alcoólico é o "calcanhar-de-Aquiles" da profissão médica, porque é freqüentemente demais o médico saber que aquele corpo maltratado e suicida que ele está tratando, voltará da recuperação daí a alguns meses em
condições iguais ou até piores.


LIVRETE - CARTA A UMA MULHER ALCOÓLICA
"Literatura de Alcoólicos Anônimos, o caminho seguro".

Os resultados positivos de Alcoólicos Anônimos, por sua vez, são inexplicavelmente altos. Em alguns casos é tão simples que parece fantástico. Quando chegam ao final de seus próprios recursos, pedem ajuda ao A.A. e daquele dia em diante, nunca mais tomam um único gole. Em outros casos eles entram e saem do A.A. por vários meses.

Conheço uma jovem senhora que durante três anos esteve tentando seguir o programa de A.A. Até mesmo alguns dos AAs que tentaram ajudá-la tinham perdido a fé na possibilidade de ter êxito com ela. Mas ela persistia em acreditar que finalmente conseguiria ficar sóbria. Na semana passada tive a alegria de ir à festa de seu "terceiro aniversário", e assisti quando ela apagava as velas do seu bolo.
Não se podia reconhecer a pessoa que durante tantos anos sombrios havia lutado sem esperanças. Quando ela ouvira falar de A.A. pela primeira vez, havia estado bebendo durante oito anos, desde a idade de 19 anos. Sua família a havia abandonado, pois ela gradualmente descera mais e mais, até ficar fora do alcance deles. Com a idade de 27 anos parecia ter 40 - gorda, desleixada e uma chorona sentimental. Era quase impossível agora, olhar para aquela moça alta, esbelta, num bonito vestido branco, apagando as três velinhas, e relacioná-la com aquela de três anos atrás que tomara seu último gole. Há pouco tempo atrás ela casou-se com um homem maravilhoso, que a compreende perfeitamente e a admira muito. Dizem que tiraram a sorte grande no casamento e confesso que assim me parece.

Um dos milagres de A.A. é que transforma não só o corpo, mas também as emoções e a mente. Até mesmo a pele e os cabelos parecem se renovar.
Mulheres cujos corpos haviam ficado deformados devido ao descuido e abuso, agora valorizam a sua aparência, conforme uma delas me disse: "Deus parece que pintou um novo quadro de mim mesma." Não era mera ilusão minha, ou um simples desejo de que isso acontecesse, quando eu disse que você poderia encontrar mais do que a felicidade corriqueira nas vidas dos membros de A.A. De todos os grupos que existem no mundo, as pessoas que se salvaram dos horríveis abismos do alcoolismo são as mais exuberantes e felizes que já vi. Porém, não são indiferentes ou aborrecidas; todo o seu modo de vida ficou mais ativo agora. Vai parecer-lhe inacreditável neste momento, que você um
dia poderá sentir-se tão visivelmente feliz sem beber nada. Mas também vai conhecer um novo significado da palavra "felicidade".



Um comentário:

  1. Parabéns pelo seu blog, gostei muito da profundidade e relevância das matérias.

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