12 junho 2011

Alcoolismo - O natal dos sem álcool

                Cristiane Segatto - Repórter Revista Época - + de 10 prêmios de jornalismo


O Natal dos sem-álcool
Pela inclusão social dos que não bebem



Festas de fim de ano são uma prova de fogo para quem não bebe. É tempo de amigo-secreto, confraternização da firma, encontro dos formandos da turma de 1900 e bolinha, ceia de Natal, farra de Reveillon.Tudo obrigatoriamente regado a álcool. Quem não bebe (seja lá por qual motivo) precisa demonstrar um talento inabalável para a diplomacia. É preciso muito jogo de cintura para contornar a avacalhação geral sem perder a pose. Ninguém se toca que o colega sóbrio não bebe porque toma antidepressivo. Ou anticonvulsivante. Ou outro remédio qualquer que não pode ser misturado ao álcool. Ou não bebe porque, simplesmente, é um alcoólatra em recuperação.
“Na nossa sociedade, é difícil aceitar uma pessoa que não bebe. Não beber é como uma ofensa”, diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, presidente-executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). “Quem não é alcoólatra tem dificuldade para enfrentar essa pressão social. Imagine o que acontece com os que são alcoólatras”, afirma.
Cerca de 19 milhões de brasileiros sofrem de dependência ou abuso de álcool. Abuso significa uso com problemas. São as pessoas que bebem e chegam atrasadas ao trabalho. Ou provocam acidentes de trânsito. Ou agridem alguém.
Até que elas decidam se tratar, vivem um teatro. Tentam enganar a si mesmas e aos que estão ao redor com a ilusão do autocontrole. Quase todas as manhãs observo de longe um velhinho que vive algo assim. Ele encosta no balcão da padaria e o funcionário pergunta: 

– O de sempre? 

– O de sempre. 
O rapaz entorna a pinga até preencher a metade de um copo americano. Coloca o copo sobre o balcão e, ao lado dele, uma garrafa de soda limonada. Aos poucos, o velhinho vai misturando os dois líquidos transparentes. Quem para no balcão para comer o pão com manteiga de todos os dias reconhece o freguês da “soda limonada”.
Ele tem olhos tristes, cabelos brancos, corpo frágil. Fico me perguntando se algum dia tentou se tratar. Ou se ainda não se deu conta de que é dependente.
Dedico essa coluna de Natal a todos os dependentes que tiveram a coragem de assumir o problema e de persistir no tratamento. Festas de fim de ano podem ser momentos difíceis. Resolvi conversar sobre isso com o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, que tem uma enorme experiência com dependentes de álcool e drogas.
ÉPOCA – As festas de fim de ano aumentam o risco de recaídas?
Arthur Guerra de Andrade – Elas podem aumentar a vulnerabilidade dos pacientes de risco. Um número assustador de recaídas ocorre nos momentos bons da vida. Quando a pessoa está numa celebração ou quando recebe uma notícia boa. Cerca de 30% delas ocorrem quando o paciente recebe uma promoção, tem um filho ou em outros acontecimentos positivos.

ÉPOCA – Basta um gole de álcool para a pessoa recair?
Andrade – Quem recai não admite que tem uma doença (o alcoolismo). Quer mostrar que é capaz de beber moderadamente, sem perder o controle. Acha que vai beber dois uísques e conseguir parar. As pessoas precisam entender que alcoolismo não é uma questão de falta de força de vontade. É um processo bioquímico.

ÉPOCA – Que cuidados as famílias e os amigos devem ter nessas celebrações?
Andrade – Muitas vezes os familiares acham que podem oferecer ao alcoólatra meia taça de Prosecco só na hora do brinde. Isso não funciona. A molécula de etanol entra nas papilas gustativas e o cérebro já é alertado. Conforme o álcool começa a circular no organismo, o cérebro vai pedindo mais. É irrefreável. Para quem já perdeu o controle antes, é tudo ou nada.

ÉPOCA – É impossível estar em tratamento e ainda assim participar do brinde no Natal e no Reveillon?
Andrade – A cada 100 médicos que tratam alcoolismo, 95 vão dizer que uma pessoa em tratamento não pode beber nem uma gota de álcool. Alguns médicos mais jovens ou mais ousados acham que é possível permitir que uma pessoa em recuperação beba socialmente de vez em quando. Tenho simpatia por essa ideia, mas depois de 30 anos lidando com alcoólatras acho que essa é uma ideia romântica. Não me lembro de um paciente sequer que tenha voltado a beber socialmente.

ÉPOCA – Bebidas como cerveja ou vinho sem álcool ajudam ou atrapalham?
Andrade – Atrapalham. Não existe fermentação sem álcool. Essas bebidas podem não dar o efeito embriagante mas ainda assim não são totalmente livres de álcool. Se a pessoa é convidada para um evento e sabe que os amigos vão estar todos bebendo talvez seja melhor nem ir.

ÉPOCA – Por que algumas pessoas nunca vão ter problemas com álcool enquanto outras, na mesma família, vão se tornar alcoólatras?
Andrade – Estudos realizados com gêmeos criados no mesmo ambiente familiar e cultural mostram que um dos irmãos é capaz de beber moderadamente enquanto outro perde totalmente o controle. Não sabemos o que está por trás dessas diferenças. Quem descobrir isso pode ganhar o Prêmio Nobel.

ÉPOCA – A OMS está preparando uma estratégia global para reduzir os danos provocados pelo álcool. Já se fala até em alcoolismo passivo. O álcool vai se tornar socialmente inaceitável como aconteceu com o cigarro?
Andrade – O álcool é muito diferente do tabaco. Ninguém defende uso moderado de tabaco. Mas as pessoas não são contra o álcool. São contra o abuso de álcool. O abuso é de fato um problema seríssimo de saúde pública. Todos nós conhecemos um alcoólatra no trabalho, na família, no condomínio. São 19 milhões no Brasil. Além de prejudicar a si mesmos, eles podem causar danos a outras pessoas ao provocar acidentes e outras formas de violência. Mas essa ideia de lançar uma estratégia global me parece um tanto romântica. Há diferentes padrões de consumo de álcool nas diversas regiões do mundo. São realidades distintas. Ouvi um dia desses que uma das propostas é aumentar o preço das bebidas. Isso não adianta. Só vai estimular o consumo de pinga feita em alambiques clandestinos e outras coisas do gênero.
 Neste fim de ano ofereço um brinde à turma da água com gás, da Coca-cola com gelo e limão, do suco de pitanga. É preciso entender as razões dos sem-álcool. E aceitá-los como são. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário