02 junho 2011

Relato de um Alcoólatra


Sou alcoólatra, mas não bebo

Estou na casa dos sessenta, bem perto de dobrar o Cabo da Boa Esperança. Por isso, resolvi abrir meu anonimato de uma vez por todas e resumir a minha trajetória no inferno do alcoolismo e como escapei dele.
Acredito que a iniciativa poderá ajudar aqueles que estão na ativa e suas famílias. O álcool, se você não sabe, mata mais que o fumo e infartos.
Por isso, deve ser combatido a todo custo e não incentivado por comerciais, pela guerra das cervejas, que exibe mulheres bonitas tomando umas e outras ou, então, propalando que a bebida desce redondo.
Tudo bem, tem gente que pode beber, pode até tomar um porre, sem problemas. Mas há pessoas, em especial os jovens, que, por propensão, ao tomar uma, podem se tornar alcoólatras. E aí, o bicho pega.
Entrei no inferno do alcoolismo aos 24 anos e saí dele aos 36. Mas ainda sou alcoólatra. Só que não bebo. Dá para entender?
Explico: alcoolismo é uma doença, progressiva e incurável. Isso significa que um alcoólatra como eu, pode ficar sóbrio, há meios para isso.
Mas se tomar de novo o primeiro gole, a vaca vai para o brejo: ou eu morro em pouco tempo – o que é mais provável – ou fico louco.
Feito esse preâmbulo, eis o meu depoimento.
De volta à vida
“Tomei meu último gole na tarde de 6 de abril de 1976, à porta de uma clínica psiquiátrica, no Rio de Janeiro, onde, pouco depois, fui internado pelo Bira, membro de Alcoólicos Anônimos (AA).
O incrível é que eu havia estado em AA um dia antes, sem saber como. E, até hoje, não lembro de como cheguei lá e o que aconteceu. Só sei que, pouco antes de me encontrar com o Bira, na manhã daquele mesmo dia 6, estava, como sempre, desesperado para beber.
Revirei os bolsos da calça e encontrei uns trocados. Assustei-me, pois tinha certeza de estar sem dinheiro. ‘Será que roubei?’ O susto passou rápido. O fundamental, nesses momentos, era que, tendo dinheiro, podia beber.
E bebi. Mas não foi o suficiente. Queria mais. E vasculhei meus bolsos de novo. Achei um pedacinho de papel. Nele estavam o nome e o telefone do Bira, as iniciais AA, e um lembrete: ‘Se precisar de ajuda, nos chame’.
Eu precisava. Para beber. Pois só bebendo pararia de tremer. Só bebendo, poderia respirar aliviado, e, em seguida, beber mais e mais, até me desligar das coisas do mundo.
Foi, então, que telefonei para o Bira. Ele também tinha estado na mesma reunião de AA que eu e após a qual – contaram-me mais tarde – apaguei. O Bira tentou levar-me para casa dele, mas, no meio do caminho, acordei e fugi.
Maravilhas do AA
Fui parar de novo na mesma beira de calçada que vinha freqüentando nos últimos quatro meses. Lá, apaguei de novo. Até o Bira chegar, me acudir, e me convencer de que deveria ir para uma clínica: eu estava inchado, fraco, maltrapilho e maltratado.
Fiquei na clínica mais ou menos um mês. Ao sair, descobri AA e pude verificar as maravilhas que falavam dessa irmandade que, há mais de meio século, se dedica à recuperação de alcoólatras. De lá para cá não bebi mais. Estou sóbrio.
Mas ainda sou alcoólatra. Isso mesmo: sou alcoólatra, pois, como aprendi em AA, alcoolismo é uma doença progressiva, que pode ser detida, mas é incurável.
Basta um gole de qualquer poção que contenha álcool e recomeça todo o processo de dependência psíquica e física pela qual passei, incluindo aí a degradação moral.
Isso não significa que quem tem problemas com o álcool há de, necessariamente, perder o emprego, a família, ser preso, internado e ter alucinações — ver bichos, como aconteceu comigo.
Muitos, atualmente, têm tido a sorte de ser tratados a tempo. Ainda bem, pois chegar no ponto em que cheguei e estar vivo é, simplesmente, um milagre.
Cervejinha de dia, o começo
Comecei a beber lá pelos 23 anos, nos fins de semana. Uma cervejinha, durante o dia. Um uisquinho á noite, para relaxar. Um vinhozinho antes de fazer sexo, que ficava mais gostoso.
Gradualmente, o álcool foi insinuando-se por meu corpo e mente, sempre como aditivo de qualquer coisa que eu pretendesse fazer.
Alcoolizado, eu me sentia o dono do mundo. Em casa, todos viviam em sobressalto: nunca havia dinheiro para as despesas, nem carinho para a mulher e os filhos. Eu me casara como o álcool.
À minha mulher restava apenas lamentar-se e chorar. Eu não dava a mínima. Aliás, as choradeiras dela contribuíam para que eu me aborrecesse e cometesse mais desatinos.
Por essa época, alguns amigos me alertaram: ‘Você está indo longe demais!’. Eu esbravejava: ‘Bebo com meu dinheiro e ninguém tem nada a ver com isso’. Com o tempo, essa sensação de poder, transformou-se em desespero: queria parar, mas não conseguia. ‘Não vou mais gastar meu salário pelos bares’, prometia.
O palhaço, o porco e o leão
E gastava. ‘Não vou mais sair de casa aos domingos à noite e só aparecer na manhã seguinte’, jurava. E não cumpria. Afundava-me cada vez mais no copo e na lama.
Engraçado esse negócio de afundar na lama. É meio batido. Mas tem a ver, pois o alcoólatra que só abandona a bebida quando está perto da morte, passa, invariavelmente, por três fases: a do palhaço, a do leão e a do porco.
Muitas vezes fui agressivo e encostei o cano de um 38 na cabeça de pacatos motoristas de táxi, simplesmente porque eles se recusavam a me levar por apenas dois quarteirões. Era o leão em cena.
Quantas vezes fui motivo de risos: não é gozado ziguezaguear pela rua e bater, de repente, com a cara num poste? Era o palhaço em ação. Pouco antes de conhecer AA eu usava a mesma roupa há meses, não me barbeava e nem tomava banho. Não é coisa de porco?
Em apenas cinco anos, dos 25 aos 30, o álcool me fez passar uma noite de terror num cubículo de manicômio e a humilhação de dormir na rua. Aos 34 anos, o álcool dirigia totalmente a minha vida.
Todo aquele orgulho de ser poeta, letrista premiado em festivais de música, jornalista conhecido — tudo isso terminou jogado nos cantos mais imundos dos botecos das zonas de baixo meretrício.
O que sobrou de mim, aos 36 anos, naquele 6 de abril de 1976, foi um bêbado trôpego, equilibrando-se nas calçadas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Sem rumo. Ou melhor: em direção à loucura e à morte.
Jornada para o inferno
Alcoólatra é uma palavra dura. Mas se encaixa justo em quem não resiste a mais um gole, depois de ter tomado o primeiro — início de uma longa jornada para o inferno.
Em AA aprendi que alcoólatra, entre tantas definições, é especialmente aquele que tem a capacidade de absorver grandes quantidades de álcool, sem, no início, ficar bêbado.
Sobre isso há uma historinha contada por Donald M. Lazo, um estudioso de dependência química, em seu livro Alcoolismo:o que você precisa saber.
Ele conta que cinco jovens foram a uma festa e beberam muito. No final, todos saíram cambaleando, menos um. Qual deles seria um alcoólatra em potencial? ‘Esse um’, responde Donald.
AA tem me ensinado bastante sobre alcoolismo. Lá, são ditos alguns slogans que, se praticados, tornam a abstinência ao álcool menos sofrida: ‘Evite o primeiro gole’; ‘Vá devagar, mas vá’; ‘Viva e deixe viver’.
Em AA aprendi a perder o orgulho, a pedir socorro quando necessário, a não estar só. E, principalmente, a não mentir para mim mesmo.
Hoje, alguns amigos, meus filhos, que pensava ter perdido para sempre, reaproximaram-se de mim. Não percebo mais medo nem rancor nos olhos deles. Só mágoa, um sentimento cujo mecanismo funciona mais ou menos como quando a gente se corta: a ferida sara, mas ficam as cicatrizes.
O bom agora é que todos os que convivem comigo e sabem de meu alcoolismo, me animam, vibram com cada dia de sobriedade que conquisto. E isso me dá forças para não voltar ao copo. Foi mesmo um milagre. Ou um lance de sorte, sei lá. Qualquer que seja a causa, parar, em casos iguais ao meu, é muito difícil.
Para ter uma idéia, foram necessários quatro anos de abstinência para que me sentisse em condições de participar de reuniões sociais. E somente depois de cinco anos sóbrio consegui, de novo, meu primeiro trabalho. De qualquer forma, é possível parar.
Basta uma certa disposição, ainda que débil. Algo como: ‘Puxa, eu gostaria de parar de beber, mas de que jeito?’. E mesmo que esse desejo se transforme em dúvida e desemboque num gole, não faz mal. É essa vontadezinha que tece um fio de esperança.


3 comentários:

  1. boa tarde a todos,eu tenho 60 anos, 45 passei no alcoolismocom quarenta anos dentro de um bar o dono do bar , sr ;ADILON, ME FEZ O FAVOR DE ME EMPURRAR UMA MULHER QUE TAMBEM ERA UMA PINGUNÇA IQUAL A MIM, NOS CONHECEMOS FOMOS PARA UM RELACIONAMENTO, DESTE RELACIONAMENTO, TIVEMOS UM CASAL DE FILHOS, AI O SOFRIMENTO FOI DOBRADO , PELA INRRESPONSABILIDADE DE 2 ALCOOLATRAS, HA 6 ANOS RESOLVI PARAR COM MINHA INRRESPONSABILIDADE,CONHECI ALCOOLICOS ANONIMOS PELA DOR,O MEU SOFRIMENTO NO ALCOLISMO FOI DOS PIORES NA VIDA DE UM HOMEM VAZIO QUE EU ERA MENTIROSO ARROGANTE, E COVARDE ,TOMEI A DECISAO DE ABANDONAR O ALCOOL DA MINHA VIDA , E FOI UM NOVO COMEÇO DE VIDA PARA MIM , SO QUE OS POBLEMAS AUMENTARAO, POR CAUSA DO ALCOOLISMO DA MINHA EX ESPOSA , BRIGAS , POLICIA NA PORTA , PERIODICAMENTE, MEUS PROPRIOS FILHOS ,ME FALAVA TOMA UMA ATITUDE MEU PAI LARGA ESTA MULHER, MESMO EU NAO BEBENDO E QUERENDO AJUDAR A ELA , LEVEI VARIAS VEZES PARA UMA SALA DE REUNIAO , FOI ENCRESSADA VARIAS VEZES , MAIS NUNCA LEVOU A SERIO ESTA MARAVILHOSA IRMANDADE, ME DIVORCIEI DELA , HOJE MEUS FILHOS MORA COMIGO , COM MUITO PRAZER SOU O PAI E A MAE DELES, E SOMOS FELIZ PORQUE EU NAO BEBO EVITO O PRIMEIRO GOLE E FREQUENTO AS REUNIOES, COM MEUS 60 ANOS TIREI MINHA CARTEIRA DE HABILITAÇAO TENHO MEU CARRINHO PARA IR NAS REUNIOES, SENDO QUE QUANDO EU BEBIA ERA LEVADO PARA CASA NOS BRAÇOS DE OUTROS DOENTES COMO EU QUE AS VEZES SE APROVEITAVA PARA LIMPAR MEU BOLÇO , HOJE EU LEVO OU TENHO TENTADO LEVAR ELES NO MEU CARRO PARA UMA SALA DE ALCOOLICOS ANONIMOS , POUCOS FICAM, MUITOS VOLTA PARA MATAR OU MORRER NAS GARRAS DO ALCOOLISMO , SOU INCRESSADO, NO GRUPO RENASÇER, AQUI EM BELO HORIZONTE, MEU TELEFONE PARA CONTATO 85816764, MEU NOME CARLOS, 24 HS A TODOS?

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  2. S.P.H... +24hrs...
    S.C.S.
    👀👍👍

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  3. sou ex alcoolatra vim de uma ffamilia de alcooltra pai alcoolatra tios primos todos os dias meu pai saia para trabalhar pela amnha cedo chegava ao meio dia ja com aquele cheiro de bebida minha mae falava ele nao dizia nada almocava se deitava acordava as tres da trde tomava seu banho se arrumava e saia novamente sem falar tinha um jogo de baralho ele ficava um pouco olhando eu ate jogar bola por que proximo era o campo depois saia de la ia para o boteco chegava em casa a noite bebado que as vezes erava ate a casa eu ia chamar ele aquilo me machucava muito crecir vendo aquilo todos os dias ali foi aonde tudo comecou em minha vida comecei a beber eu tinha 15 anos de idade ao 17 cheguei em casa bebado pela primeira vez depois dai comecei a beber todos os dia tomava aquela velha dose para almocar trabalhar jantar e fui me afundando cada vez mais na bebida comecei a passar semanas inteiras bebendo minha familia falava eu achava que eles eram chatos porque todo alcoolatra acha que se livra sozinho do vicio mais nao o alcoolismo e uma doenca quando eu ceguei ao os meus 25 anos eu virei alccoltar de pe de balcao o famoso papudinho pe enchado sem perspectiva de vida alguma sem emprego sem nada essa foi o fim sair da minha felicidade entrei no inferno chegando ao fim do poco sem alguem pra me levantar mais DEUS e maior hj sou evangelico DEUS seja louvado amem...

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