25 julho 2011

Alcoolismo afeta povo indígena


ÁLCOOL 
Os males trazidos à aldeia pelo vício em álcool também são os mesmos constatados na sociedade não-indígena, mas têm efeitos mais profundos, uma vez que a desagregação familiar gerada pelo alcoolismo acaba tendo impacto sobre toda a estrutura comunitária. “Eu acredito que o alcoolismo é hoje a principal doença que temos nas aldeias. É difícil de resolver, pois gera muitos dos outros problemas que acontecem”, aponta Olívio Jekupé, presidente da associação da aldeia Krukutu.
Relações necessárias ◆ A psicóloga e professora Tânia Bonfim realiza suporte psicológico na aldeia Krukutu, no bairro de Parelheiros, em São Paulo. As visitas começaram a pedido dos líderes da aldeia, assustados com o aumento do consumo de álcool e os conseqüentes problemas acarretados por ele.
Os métodos tradicionais de contenção dos problemas sociocomportamentais, que geralmente envolvem a figura do líder espiritual, muitas vezes mostram-se insuficientes quando a questão é a compulsão no uso de álcool. “A cachaça traz todo o problema porque a pessoa não sabe o que faz quando bebe. Quando dá problema dentro da aldeia, o cacique e as outras lideranças tomam uma providência. Fazem reunião para aconselhar e ver se as coisas acalmam. Porém, hoje, muitas pessoas acabam desrespeitando as orientações, pois as esquecem quando bebem”, lamenta Laurindo Veríssimo, pajé da aldeia Krukutu.
Tradicionalmente, diversos povos indígenas fazem uso de bebidas fermentadas em seus rituais, tendo um contato com o álcool que data de antes da colonização. Essas bebidas, entretanto, costumavam ter um teor alcoólico muito fraco. “As bebidas levadas pelos não-indígenas, bem mais fortes, talvez tenham representado uma pequena diferença geradora de desequilíbrios. Com aquele tipo de substância eles não tinham experiência em lidar”, especula Tânia. O comércio desenfreado e mal-intencionado, ao longo das gerações, fez com que os índios tivessem acesso facilitado ao álcool.
Na aldeia Krukutu, alguns casos mais graves de alcoolismo são tratados por psiquiatras da Universidade de São Paulo. A psicóloga Tânia dá o suporte psicológico necessário, integrando a equipe multidisciplinar – que inclui o pajé. “Procuro intermediar as visões diferentes envolvidas no quadro, tentando entender a estranheza que pode aparecer em ambas as partes. Muitos dos índios, por exemplo, sentem- se envergonhados por fazer tratamento”, explica. Para Olívio Jekupé, o intercâmbio com a Psicologia, nestes casos, é benéfico. “Às vezes, até temos soluções próprias na aldeia. Mas se tem uma ajuda de fora que pode ser boa, temos que aproveitar”, acredita.
ASSOCIAÇÃO COM O XAMANISMO 
Quando a aproximação de psicólogos e psiquiatras tem caráter terapêutico, o trabalho conjunto com pajés e outros líderes espirituais é considerado de grande importância. “A atuação da Psiquiatria moderna e da Psicologia sem a amplitude antropológica lida com os sintomas tentando esfacelá-los e, portanto, despreza uma comunicação no ‘aqui e agora’ ou suas origens traumáticas”, define o Dr. Marcos de Noronha.
Sem uma preocupação com as concepções de saúde e doença de um determinado grupo ou com suas próprias práticas rituais, corre-se o risco de desrespeitar todo um sistema de valores, o que não traz benefícios para a prática terapêutica. “Nos anos 40, houve vários equívocos com relação a isso. Determinado povo era classificado como neurótico. Nas críticas posteriores, viu-se que o povo havia sido vítima de perseguições e violências coloniais. É preciso que haja um desarmamento: eu não tenho o esquema pronto do desenvolvimento mental do homem em geral, tenho uma possibilidade de compreendê-lo em determinados contextos”, afirma Carmem Junqueira, antropóloga e professora da PUC-SP.

O intercâmbio entre os saberes ocidentais e os indígenas pode gerar frutos como a combinação das práticas terapêuticas. “Gosto de citar o exemplo de uma colega que, nos anos 60, em vez de simplesmente medicar os casos de epilepsia com fenobarbital, preferiu convencer os xamãs a associar a droga a seus ritos de cura”, narra Noronha. A médica conseguiu um tratamento efetivo e duradouro, sem desqualificar os recursos tradicionais daquele povo e sem interferir em sua visão de doença.
A Etnopsiquiatria ou Psiquiatria cultural é uma vertente médica que procura estudar a psicopatologia levando em conta os aspectos socioculturais do indivíduo e os distúrbios de sua sociedade, considerando aspectos comportamentais de seus integrantes. “Não precisamos fumar e dançar em volta da fogueira para atuarmos como etnopsiquiatras”, diz Noronha. “As técnicas da Psicologia sistêmica e do Psicodrama se identificam, em alguns aspectos, com os recursos de que os terapeutas tradicionais – pajés, xamãs – se utilizam. Estudamos sem preconceito esses fenômenos e encontramos razões para sua eficácia. Com uma comunicação congruente à cultura do paciente, entendemos o significado dos seus sintomas”, completa.
Uma das ferramentas utiliza
SAÚDE MENTAL 
Os males que diversos povos indígenas enfrentam hoje em dia, como alcoolismo, baixa auto-estima, depressão e suicídio, têm origem primordialmente no contato com a sociedade não-indígena – e nas mais variadas agressões sofridas. Os guarani-kaiowá, por exemplo, que moram na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, viram uma série de suicídios entre seus jovens, nos anos 90. “Os kaiowá ficaram reduzidos a um pequeno pedaço de terra cercado por fazendas. Não conseguem manter o grupo unido, pois é uma população grande, e não há alimentação adequada. Os jovens têm realmente poucas perspectivas”, afirma Carmem.

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