21 julho 2011

Alcoolismo aumenta em Luanda - Angola


Consumo de álcool aumenta em Luanda

Produzidas localmente ou importadas, as bebidas alcoólicas têm grande saída e fiés consumidores
Excesso leva jovens aos hospitais
Fotografia: Jornal de Angola
Uma festa costuma ser acompanhada com bebidas alcoólicas. Diz-se que um “drink” social, não faz mal a ninguém. Mas é cada vez maior o número de jovens que consomem álcool em excesso, nas festas ou na vida quotidiana. Os especialistas dizem que os jovens não bebem para esquecer os problemas da vida. Estão mesmo a exagerar nas bebedeiras. Cada vez chegam mais jovens aos Bancos de Urgência e as autoridades sanitárias já falam num problema de saúde pública .

Beto Damba, segurança privado, antes de ocupar o posto de trabalho, na Baixa de Luanda, bebe o resto de vinho, numa lata, em campainha de um amigo de ocasião. A garrafa de um litro e meio, já vazia, foi deixada no chão, entre dezenas de outras garrafas e pacotes de plástico do popular whisky “the best”.
Daniel Chitanda, um lavador de carros, apressou-se a explicar: “os vasilhames que estão aqui espalhados no chão, há pouco tempo estavam cheios. Eles compraram na cantina porque é mais barato e beberam aqui mesmo na rua”, conta. Beto Damba revelou que bebe para suportar as longas horas de trabalho que tem pela frente. 
A reportagem do Jornal de Angola acompanhou o movimento frenético vivido no bairro do Rangel. Ali, toda a ocasião é propícia para beber nem que seja um simples “copito”. Os vários pontos que dão acesso à Rua da Brigada estão quase sempre apinhados de gente. Enquanto conversam, os jovens não param de consumir bebidas alcoólicas. 
Carlos Cassumbi, de 19 anos, morador no bairro há oito anos, critica os jovens que bebem excessivamente. Mas, um amigo contraria a voz do bom-senso: “ nós bebemos o normal e só ficamos animados”.


Beber sem regras

O fim-de-semana é tempo de festa no Rangel. A boa disposição é visível no rosto dos consumidores de bebidas alcoólicas. O ambiente que se vive no Rangel não difere muito dos demais municípios de Luanda.
 A Ilha de Luanda é uma concorrida área de lazer. “Ao fim de uma semana de trabalho é bom beber uns copos aqui na Ilha, também faz parte da tradição”, diz Massango Neto, um jovem da Vila Alice. Próximo dele, Paulinho, Júnior, Marta e Ana Lurdes exibem copos de vinho e uísque com Coca-Cola. Eles dizem que começam a beber na noite de sexta-feira mas nunca sabem quando param. “Às vezes só no domingo de manhã”, admite Júnior.
Junto de um carro que serve de bar, nas imediações do Ponto Final, outro grupo de jovens esvazia garrafas de cerveja num ritmo impressionante. E “varrem-nas” numa espécie de desafio. Em pouco tempo são visíveis os efeitos. 
“O pessoal vem para aqui para se embebedar, ou para ficar extrovertido antes de curtir uma boa discoteca”, realça Francisco Muavungo um dos integrantes do grupo. Mecânico de profissão, ele já está a beber a sua oitava cerveja, mas aguenta-se bem. “Os mais novos, é que têm dificuldade em aguentar”, ironiza.
Mudam os protagonistas, mas a rotina sé a mesma. À medida que chega a noite, no interior de um mini-bar no Bairro Popular, homem vomita descontroladamente de tanta bebedeira. Três amigos estão entretidos na conversa. Um deles lembra que a maior bebedeira que apanhou custou apenas 1000 Kwanzas.
“Estávamos a conversar e ao mesmo tempo bebíamos as nossas birras. Quando demos por nós estávamos bêbados”, recorda.
A noite avança e a euforia aumenta. Na escada de acesso ao mini-bar está um jovem com a cabeça entre os joelhos. A pessoa que o acompanha explica que “está um bocadinho mal disposto”. No exterior do estabelecimento, uma jovem embriagada encosta a cabeça no ombro de um rapaz. Naquele espaço, são cada vez mais os que se sentam no chão. Outros revelam grande dificuldade em permanecer de pé. A bebedeira tomou conta deles.

Homens e mulheres nos copos

Ultimamente, já não existe distinção de sexos. Tanto homens como mulheres foram agarrados pelo álcool. Médicos com quem falámos nas urgências dos hospitais dizem que estão “profundamente apreensivos” com o registo de muitas mulheres que vão parar ao hospital por consumo desmedido de bebidas alcoólicas.
“Não consigo perceber porque as mulheres estão ter este comportamento contra a sua própria saúde”, disse à saída do banco de urgência do Hospital Josina Machel, Marta Almeida, uma das médicas de serviço, salientado que “a situação é preocupante”.
Marta Almeida explica que o consumo excessivo de álcool está ligado ao crescente número de atropelamentos que dão entrada naquela unidade hospitalar
“Nas urgências recebemos cada vez mais jovens com doses de álcool inconcebíveis”, disse a médica.

Patologia grave

O aumento de patologias graves decorrentes do consumo excessivo de bebidas alcoólicas encontra sustentação no diagnóstico do psiquiatra Rui Pires, que confirma o aumento vertiginoso de pacientes que dão entrada no Hospital Psiquiátrico com problemas de dependência alcoólica. 
“É um problema que atinge todos os estratos sociais, e neste momento temos um aumento de pessoas a padecer desta enfermidade”, disse.
Mesmo sem dispor de dados estatísticos, Rui Pires, que também é chefe de serviço do Hospital Psiquiátrico de Luanda, apontou entre as alterações mentais mais comuns, as crises de abstinências alcoólicas, os delírios e os transtornos de ansiedade. 
 “Se durante muitos anos o alcoolismo incidia em indivíduos acima dos 40 anos, hoje é comum observar jovens entre os 15 e 16 anos com alterações mentais sérias como consequência do abuso do álcool”, realça o psiquiatra. “O que nos preocupa é que a população que nos chega é cada vez mais jovem. Também constatamos muitas mulheres com dependência alcoólica”, lamenta.

Recuperação é cara

Dados médicos indicam que 30 a 60 minutos é o tempo máximo que o álcool demora a passar para o sangue, se ingerido durante ou depois das refeições. 
O alcoolismo pode provocar doenças como úlceras, cirrose hepática, doenças cardiovasculares e respiratórias, mentais, dificuldades de raciocínio, perda de memória, depressão e delírio alcoólico. 
O psiquiatra Rui Pires adverte que este mal que já é considerado um problema grave de saúde pública e para ser estancado precisa de medidas especiais e urgentes das autoridades sanitárias. 
O especialista reforça que a recuperação de alguém que padece de alcoolismo tem um custo demasiado elevado e que o tratamento pode levar anos, com a agravante de ser sempre possível uma recaída. “Quando o alcoólatra não encontra receptividade na sua família para tratar da doença, o tratamento torna-se muito mais comprometido. Mas, se existir apoio moral da família e amigos, com certeza o resultado do tratamento é promissor”, disse
Rui Pires explica que na mulher o tratamento tem um prognóstico mais reservado, “porque o efeito é grave e pode deixar marcas muito mais profundas que no homem”. Rui Pires critica a exagerada promoção e publicidade que se faz das bebidas alcoólicas. “É preciso que as pessoas tenham conhecimento dos efeitos nocivos que o consumo do álcool provoca à saúde”, afirmou. E pediu a todos os angolanos para adoptarem hábitos de vida saudável. E isso passa por recusar o álcool.



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