01 agosto 2011

Alcoolismo e a destruição do cérebro


Como o álcool destrói o cérebro humano
Estudo brasileiro mostra que as lesões são mais graves nos consumidores jovens
Está provado: o álcool compromete seriamente o funcionamento do cérebro, as lesões são crônicas e o estrago é tanto maior quanto mais cedo se tenha adquirido o hábito de beber. Tudo isso foi demonstrado, de maneira conclusiva, numa pesquisa realizada pelo neurocirurgião Roberto Augusto de Carvalho Campos, da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). "Nosso estudo mostra que o álcool provoca alterações neurofisiológicas profundas nas pessoas. E que os prejuízos são muito mais significativos em adolescentes do que em adultos", enfatiza Campos. O pesquisador investigou 32 consumidores de álcool, com no mínimo 15 anos de dependência. O principal exame consistiu em comunicar aos indivíduos um estímulo auditivo e, por meio de eletrodos, medir, em vários pontos do percurso, o sinal elétrico resultante. Num indivíduo classificado como normal, o tempo para que o sinal viaje do ouvido ao córtex auditivo, situado no cérebro, é de 50 mili-segundos. Já era esperado que o alcoolismo tornasse esse trânsito bem mais lento.

Potencial elétrico
Porém, os resultados do teste revelaram muito mais do que isso: não apenas a transmissão ficou lerda, mas o estímulo provocou respostas tão insignificantes que as elevações de potencial elétrico não foram sequer detectadas pelos aparelhos. Tornou-se claro também que as alterações são permanentes, pois, antes de realizar os exames, o pesquisador impôs aos pacientes um período de 45 dias sem beber, de modo que as medições não fossem influenciadas pela ingestão recente de bebida, nem pela chamada síndrome de abstinência. O que se revelou nessa fase da pesquisa converge com os resultados dos testes psicológicos, que mostraram graves danos à memória, capacidade de abstração e inteligência, além de extrema imaturidade emocional.
Os 32 pacientes, com idades entre 30 e 50 anos, podem ser classificados como consumidores pesados. Alguns chegavam a ingerir um litro e meio de aguardente por dia. Mas outros não passavam de três garrafas diárias de cerveja. "Não está excluído que as alterações neurofisiológicas que descobrimos neles possam também ser encontradas em consumidores mais leves", comenta Campos.
Entre os 17 piores resultados, 14, isto é, 82,4%, vieram de pessoas que começaram a beber antes dos 18 anos de idade. Muitas se iniciaram entre os 12 e os 15, incentivadas pelos pais, tios ou irmãos mais velhos. E sua performance foi a pior, mesmo quando comparada com a de indivíduos que, tendo principiado com maior idade, beberam durante mais tempo.
Essas descobertas tornam-se alarmantes quando se leva em conta os dados de uma enquete realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). Entrevistando 15.503 estudantes, do primeiro e segundo graus, de dez capitais do país, a instituição constatou que o álcool é a droga mais consumida entre as crianças e jovens. E que 50% dos alunos com idade entre 10 e 12 anos já haviam ingerido bebidas alcoólicas Entre os entrevistados, 28,6% beberam pela primeira vez em casa e, em 21,8 % dos casos, as bebidas foram oferecidas pelos pais.
A
s conseqüências da bebida
 
Nos países desenvolvidos - onde essas estatísticas são feitas - o consumo de bebidas alcoólicas vem sendo responsável por:
  • 50% dos acidentes automobilísticos fatais
  • 50% dos homicídios
  • 30% dos estupros
  • 25% dos suicídios
  • Mais de 60% de casos de violência contra crianças.
  • Alta incidência de hemorragias digestivas e traumas cranioencefálicos por quedas e acidentes domiciliares


Área talâmica
O estudo realizado na Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina mostra que, quando consumido em excesso, o álcool é tão nocivo quanto qualquer outra droga. E, independentemente de ser ingerido como aguardente e outras bebidas pesadas, ou na forma pretensamente leve da cerveja, ele produz, com o tempo, disfunções permanentes no sistema nervoso. As maiores alterações eletrofisiológicas foram registradas na região do tálamo. "Ela é a porta de entrada do cérebro no que se refere à sensibilidade", explica o médico Flávio Aurélio Parente Settanni, chefe da disciplina de otoneurologia da Unifesp-EPM e orientador da pesquisa feita por Campos.
Tiro na cabeça
Os danos psicológicos do álcool são conhecidos há muito tempo. Mas jamais havia sido demonstrado que eles se associam a severas alterações neurofisiológicas. Essa nova descoberta, feita por um pesquisador brasileiro, põe em xeque o modo leviano com que o alcoolismo costuma ser encarado. E pode até mesmo levar a uma revisão das biografias de alguns alcoólicos famosos. É o caso, por exemplo, do escritor americano Ernest Hemingway (1899 - 1961), prêmio Nobel de literatura. Suas fantásticas bebedeiras sempre foram tratadas de forma condescendente e glamourosa pela mídia e pela maioria dos biógrafos. Nunca se cogitou que uma eventual degeneração cerebral provocada pelo alcoolismo pudesse estar por trás do bloqueio da criatividade e da decadência física que o escritor experimentou em seus últimos anos de vida. Depois de ter sido uma das personalidades mais festejadas do século 20, ele encerrou sua trajetória metendo uma bala na cabeça.

Nenhum comentário:

Postar um comentário