08 setembro 2011

Alcoolismo - Doença a ser Evitada

Alcoolismo

O que é?
            O alcoolismo é o conjunto de processos relacionados com o consumo excessivo e prolongado do álcool, ou seja, é o vício de ingestão excessiva de bebidas alcoólicas. Caracteriza-se por uma dependência do álcool (etanol), do ponto de vista físico e psíquico. Aspectos como transtornos de ansiedade, depressões, insónias, problemas no trabalho/família/outros, etc. podem induzir ao alcoolismo.
            O indivíduo dependente perdeu a liberdade de se abster no consumo de bebidas alcoólicas,   não conseguindo controlar o seu consumo.
Há em Portugal cerca de 600.000  dependentes do álcool.
            O alcoolismo é socialmente mal visto e daí que os alcoólicos tendem a evitar este estigma. Esta defesa, para a preservar a auto-estima, faz com que a intervenção terapêutica seja, por vezes, tardia. Para ser devidamente tratado, é necessário que o alcoólico assuma a sua condição de alcoólico.
            As manifestações corporais que comprovam que alguém é alcoólico podem começar com vómitos, dores abdominais, diarreia, gastrites, aumento do tamanho do fígado, tornando-se frequentes pequenas contusões e outros tipos de ferimentos. Para além destas, acontecem geralmente esquecimentos e aumento da susceptibilidade a infecções.
            A coisa mais importante a saber: O Alcoolismo não é uma fraqueza de carácter, nem um vício, mas sim uma doença.
            A dependência do álcool conduz a uma necessidade física de beber, provocada pela falta de álcool. A isto vem juntar-se a necessidade psicológica de consumir: a necessidade de beber ocupa os seus pensamentos, modificando o seu comportamento; o indivíduo dependente acredita que não conseguir viver sem álcool.

 

Alcoolismo na família: Que fazer?

            O alcoolismo não atinge unicamente as pessoas dependentes do álcool, mas tem também repercussões na família, no seu conjunto, nas relações profissionais e privadas, assim como na sociedade em geral. O problema do alcoolismo não diz respeito apenas à pessoa que consome bebidas alcoólicas. Os membros da sua família, as pessoas mais próximas, são particularmente atingidos no plano afectivo e no seu quotidiano, sentindo-se tão desamparados como o doente alcoólico.
É uma doença que afecta toda a família no seu conjunto: divide-a e isola-a do resto do mundo. Os sentimentos, os pensamentos e os comportamentos de cada membro da família são em função do consumo de bebidas alcoólicas pelo familiar dependente.
 O alcoolismo é mais do que um problema individual. É uma “doença do sistema familiar” uma vez que cada um está envolvido, quer no processo de desenvolvimento do problema, quer na sua resolução. Para se sair da dependência do álcool, é preciso aprender a conhecer esta doença e desfazer mitos, falsos conceitos e ideias pré-concebidas.

A Moderação

Para se beber sem perigo é indispensável a moderação. Muitos dos consumidores sentem imediatamente efeitos agradáveis logo que ingerem bebidas alcoólicas: prazer, desinibição e confiabilidade. No entanto a maior parte das pessoas que as consomem com moderação conseguem-no fazer deste modo durante toda a vida.
Mas o álcool é uma droga que actua de diferentes maneiras de indivíduo para indivíduo. Em certas situações e em certas pessoas, uma pequena quantidade de álcool basta para que se instale a dependência.

Consumo de risco

O consumo de risco instala-se quando as pessoas perdem o controle do consumo. Eles encontram inúmeros pretextos para beber em sociedade. Quanto mais o álcool influenciar a vida do consumidor, mais facilmente se instalará a dependência. A tolerância aumenta, e ele bebe cada vez mais para sentir os seus efeitos. Vai-se afastando pouco a pouco dos outros e começa a perder interesse pelas coisas. Bebe diariamente, muitas vezes às escondidas e luta para controlar o consumo. Alguns tentam definir os seus limites e conseguem deste modo viver alguns períodos de abstinência. Infelizmente estes períodos são geralmente de curta  duração. O consumo começa a influenciar negativamente a vida do indivíduo, as suas responsabilidades e o seu ambiente familiar e profissional.

A Dependência

O álcool domina a vida do indivíduo que se tornou totalmente dependente. Nesses casos bebe para não sentir os efeitos da sua falta; o seu organismo tem necessidade de álcool para funcionar “normalmente”. O alcoólico perde as suas ambições e a dependência torna-o inseguro. As suas faculdades intelectuais diminuem e tem medos não habituais, tornando-se desconfiado e retraído. A família sofre também as consequências dessa mudança
A dependência instala-se de modo lento e insidioso. Ela pode, mesmo antes de ser reconhecida, já ter causado inúmeros danos corporais. Esta degradação do corpo é, felizmente, reversível ou pelo menos controlável se o indivíduo parar de beber.

Problemas causados pelo Alcoolismo
O abuso do álcool, com o decorrer dos anos, vai causando inúmeros desgastes na saúde. O álcool é tóxico para o organismo destruindo células.O consumo excessivo e prolongado do álcool provoca diversos efeitos sobre o organismo humano:
• Tubo digestivo e estômago: irritação da mucosa gástrica, o que pode provocar inflamação e ulceração e também diminui as secreções, ou seja, inibe a transformação dos alimentos;
• Fígado: neste órgão ocorre um processo conhecido como a cirrose alcoólica em que as células do fígado vão desaparecendo;
• Sistema Nervoso Central: o álcool perturba o funcionamento normal do sistema nervoso central. Num primeiro estado, a pessoa após ter bebido, parece ter um comportamento normal, mas a rapidez e a precisão dos reflexos estão já um pouco menores do que o normal. Num segundo estado, ocorre a alteração dos centros inibidores, em que a pessoa experimenta uma sensação de bem-estar, de euforia, de excitação, havendo um descontrolo na fala, no andar, na audição e na visão. Num terceiro estado, acentuam-se os sintomas, havendo uma imprecisão de movimentos. Num quarto estado, podem ocorrer alucinações, excitação motora desordenada, perda da sensibilidade, perda da consciência e pode em alguns casos levar a violência;
• Os alcoólicos tornam-se mais susceptíveis a infecções;
• Afecta o desejo sexual e pode levar à impotência;
• Nas mulheres, leva à diminuição da menstruação, infertilidade e afecta certas características sexuais femininas;
• Nos homens, pode ocorrer a diminuição das hormonas masculinas e ocorrer o atrofiamento das células produtoras de testosterona;
• Acidentes e suicídios podem conduzir a uma morte prematura.

A Negação

As pessoas alcoólicas têm uma constante necessidade de justificar os seus excessos relativamente às bebidas.
Desenvolvem um mecanismo de defesa – a negação – que lhes permite ignorar que se tornaram dependentes do álcool. A negação é uma atitude muito comum. Os alcoólicos costumam afirmar que não têm problemas e atribuem justificações para tudo o que acontece, excepto para o consumo de álcool.
A negação é uma forma de esconder o problema de si próprio e dos outros. O alcoólico faz batota com a realidade. É por isso que se ouve dizer que “...os alcoólicos são mentirosos”.
Costumam confundir causas e consequências: “se nós não discutíssemos tanto eu beberia menos”, “os meus colegas de trabalho não gostam de mim” refugiando-se em desculpas.

Falsos conceitos sobre o álcool e o alcoolismo

A maior parte das pessoas têm uma representação do alcoolismo que não corresponde à realidade. Estes mitos e falsas ideias impedem uma melhor compreensão da doença alcoólica no seio da família, entre amigos ou no meio laboral.

Os alcoólicos dizem:

“...mas eu bebo apenas cerveja”.
A cerveja também tem álcool. Numa cerveja de 33cl, há tanto álcool como num copo de vinho, ou num cálice de aguardente.
“...mas eu tenho um bom emprego...”
A maioria dos alcoólicos está inserida nos mais diferentes estratos do mercado de trabalho. Estabilidade laboral não impede os problemas com o álcool.      

Socialmente dizem:

“…mas é uma pessoa tão simpática...”
“…mas a família dele é perfeita, um lar completo onde  não falta nada…”
 “…mas ele(a) quase nunca se embriaga…”
São raros os alcoólicos que se embriagam. Eles bebem apenas o necessário para se sentirem bem e conseguem, muitas vezes, esconder dos seus colegas e chefias as suas alcoolizações.
 “…mas ele(a) é tão inteligente para ser alcoólico...”
 “…mas eu nunca o(a) vi embriagado...”
 “ …mas ele(a) vem trabalhar todos os dias...”
Muitos alcoólicos são assíduos ao trabalho, chegando mesmo a dar a entender que estão em forma e a dissimular a sua grande apetência para as bebidas.
 “... mas é mesmo um(a) desequilibrado(a) sem rumo…”
A maior parte dos dependentes do álcool é gente normal e respeitável. Só um pequeno número acaba na rua.
“... mas ele(a) não tem ar de alcoólico(a)...”
Não há um “fácies alcoólico”- o  alcoólico apresenta bom aspecto , minimamente cuidado, para não chamar a atenção.
“... mas ele(a) é de tão boa família...”
A doença alcoólica afecta qualquer pessoa, qualquer que seja o seu estrato social, familiar ou económico.
A Família  

A maneira de viver do alcoólico afecta-o a si próprio e á sua família. As tensões e conflitos e a insegurança motivados pelo seu comportamento deterioram o ambiente familiar. Os diferentes papéis dos membros da família podem influenciar de maneira determinante a evolução da doença. Por vezes os familiares adoptam, inconscientemente, comportamentos que, na maioria das vezes, mantêm o problema e até acentuam a evolução da dependência ao distanciarem-se.

            Os alcoólicos são frequentemente negligentes quanto às responsabilidades domésticas e sentimentos para com a família, que vive sob um clima de stress. Não cumprem o que prometem, causando constantes desilusões aos que lhe são próximos.

            A família sente-se por vezes responsável pela alcoolização do doente. Cada um pensa secretamente que“se eu fosse simpático, mais calmo para com ele, ele seguramente beberia menos...”. Consequentemente, os membros da família isolam-se, cada um com suas angústias, acrescidas da vergonha pelo o que se está a passar.
Os dependentes alcoólicos exigem demasiada paciência e persistência de seus familiares próximos: A cólera, a frustração e o rancor aparecem porque se esgotam todas as possibilidades de diálogo agudizando o afastamento e dando ao doente novas razões para beber.
As mulheres são mais vulneráveis ao álcool que os homens

            As mulheres atingem concentrações sanguíneas de álcool mais altas com as mesmas doses quando comparadas aos homens. Sob a mesma carga de álcool, os órgãos das mulheres são mais prejudicados do que o dos homens - elas estão mais sujeitas a cirrose hepática do que o homem. A maior incidência de alcoolismo feminino está entre 26e 34 anos. Alguns estudos mostram que o consumo moderado de álcool diário aumenta as hipóteses de cancro de mama.

O Alcoolismo é ultrapassável

           Exige de todos os envolvidos um esforço hercúleo. Os membros da família, quando confrontados com o problema, devem aprender a libertarem-se da pressão em que vivem, pois ao tornarem-se independentes, têm maior racionalidade para ajudar de modo mais eficaz.
           O processo de ajuda não passa pela proibição/impedimentos do consumo mas pela tomada de consciência do poder do álcool sobre o seu próprio comportamento e pela necessária libertação.
            O primeiro passo não é fácil de dar, por isso é imprescindível uma ajuda que deve ser procurada fora da família para que se quebre o circulo vicioso de culpabilização, que, a seu tempo, incitarão o alcoólico a beber ainda mais. Existem numerosos organismos de aconselhamento e grupos de auto-ajuda que podem acompanhar e aconselhar o alcoólico uma vez que para sair da dependência é necessária uma mudança de maneira de pensar e de agir
            O distanciamento ajudará a mudança mas o afecto à pessoa alcoólica deve ser mantido. Os membros da família, ao procurarem suporte externo, mostram-se determinados em distanciarem-se das atitudes do alcoólico e de resgatarem o amor-próprio, desculpabilizando-se da dependência instalada, dando início à resolução de uma parte do problema. Atendendo às necessidades de cada um, os familiares dão um passo decisivo em direcção a uma vida de melhor qualidade pois só se pode ajudar o outro quando se é forte e equilibrado.
Ao aceitarem ajuda exterior, os envolvidos compreenderão que não são os únicos a ter este tipo de problema. Muitas outras pessoas estão confrontadas com as mesmas dificuldades.

Grupos de Auto-Ajuda
Instituições especializadas e grupos como os Alcoólicos Anónimos, Alcoólicos Tratados e outros oferecem este tipo de apoio. Estes grupos são compostos por pessoas que vivem/viveram o mesmo problema. Tais grupos dirigem-se não só aos dependentes como também aos familiares de alcoólicos. Aí encontra-se um clima de compreensão e de confiança, calor humano, apoio para ultrapassar os problemas do álcool no seio familiar, pois a troca de experiências está facilitada.
Os centros de alcoologia também propõem alternativas terapêuticas, com aconselhamentos gratuitos e sob sigilo profissional. Diferem por vezes conforme a região, o tipo de profissionais e de técnicas de terapia usadas. A orientação inicial cabe aos Centros de Saúde e aos médicos de família, com o qual se faz necessária uma relação de confiança para a resolução quer da dependência, física quer da psíquica para que sejam encontradas soluções realistas.
O objectivo de todos os tratamentos é o mesmo: aprender a assumir e a resolver os seus próprios problemas sem recorrer ao álcool.

O Tratamento

Dependendo da gravidade da dependência, o tratamento pode ser feito em regime ambulatorial ou ser necessário um internamento. O tratamento implica parar imediatamente o consumo de bebidas alcoólicas. Esta paragem não pode ser progressiva, mas imediata.
Manter a abstinência é a maior dificuldade. Uma vez abstinente, há medicamentos específicos eficazes para ajudar o doente a ultrapassar, sem sofrimento, a síndroma de abstinência daí resultante.
Esta abstinência envolve riscos para a saúde e por isso é necessário um acompanhamento médico efectivo. Esta é a razão que tais terapias decorrem em hospitais ou clínicas especializadas, embora seja possível realizá-las em regime ambulatório. Este regime tem a vantagem de não interromper a actividade profissional do doente.
A desintoxicação física é apenas uma das etapas da recuperação. O doente TEM de aprender a viver sem álcool, uma vez que a dependência o impede de voltar a beber, mesmo que moderadamente.
O internamento destina-se aos que precisam de mais tempo para efectuar o tratamento físico e restabelecer o seu equilíbrio psicológico sem álcool. Regra geral dura 2 a 4 semanas e acontecem em clínicas ou instituições especializadas. Posteriormente, são seguidos regularmente em regime de ambulatório durante 1 ou 2 anos.
O Alcoolismo, hoje em dia, pode ser tratado com a utilização de três substâncias eficazes na supressão do desejo do álcool que são a naltrexona, a acomprosato e a ondansetrona.
A Esperança Existe!!!
Muitos alcoólicos mantêm a abstinência alcoólica após o tratamento. A recuperação é um processo lento; é preciso tempo para que sejam visíveis as modificações. O alcoolismo é uma doença crónica e por isso a recaída pode surgir em qualquer momento. A recaída não deve ser considerada como um insucesso ou uma fraqueza da pessoa, mas como um sinal de que as dificuldades ainda não estão totalmente ultrapassadas e de que o indivíduo não poderá recorrer ao álcool para as resolver. É neste momento que o doente alcoólico tem necessidade de suporte para encontrar a sobriedade. Neste âmbito são essenciais os programas de acompanhamento em regime ambulatório e pós-cura, bem como a preciosa intervenção dos grupos de auto-ajuda.
É com a ajuda e suporte de pessoas exteriores à família, com muita paciência, compreensão e perseverança recíproca que o doente alcoólico e a sua família tomam consciência dos seus problemas pessoais e das suas necessidades. Só assim aceitarão os seus próprios limites de forma a poderem encontrar o seu caminho e ultrapassar esta crise dolorosa, aspirando a uma vida mais feliz na sociedade.




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