Tratamento
Os alcoólicos que apresentam uma síndroma de abstinência geralmente tratam-se a si próprios bebendo. Algumas pessoas procuram cuidados médicos porque não desejam continuar a beber ou porque a síndroma de abstinência é muito intensa. Num ou noutro caso, o médico verifica, primeiro, a possibilidade de uma doença ou de uma lesão da cabeça que possa complicar a situação e, depois, procura caracterizar o tipo de síndroma de abstinência, calcular quanto bebe habitualmente a pessoa e determinar quando deixou de beber.
Como a deficiência vitamínica causa uma síndroma de abstinência potencialmente mortal, os médicos dos serviços de urgência dão, geralmente, grandes doses endovenosas de complexos vitamínicos C e B, especialmente tiamina. Os líquidos intravenosos, o magnésio e a glicose administram-se, frequentemente, para proteger alguns da síndroma de abstinência do álcool e para evitar a desidratação.
Frequentemente, os médicos prescrevem um fármaco benzodiazepínico durante alguns dias para acalmar a agitação e ajudar a prevenir a síndroma de abstinência. Os medicamentos antipsicóticos administram-se geralmente a um reduzido número de pessoas com alucinose alcoólica. O delirium tremens pode pôr em perigo a vida e trata-se mais agressivamente para controlar a febre alta e a agitação intensa. Geralmente administram-se líquidos endovenosos, medicamentos para baixar a febre (como o paracetamol) e sedativos, e requer-se uma supervisão estreita. Com este tratamento, o delirium tremens começa geralmente a desaparecer dentro das primeiras 12 a 24 horas.
Depois de resolvidos os problemas médicos urgentes, deve começar-se uma desintoxicação e um programa de reabilitação. Na primeira fase do tratamento, o álcool é suprimido por completo. Portanto, um alcoólico tem de modificar o seu comportamento. Permanecer sóbrio é difícil. Sem ajuda, a maioria recai em poucos dias ou semanas. Geralmente crê-se que o tratamento de grupo é mais eficaz do que o acompanhamento individual; no entanto, o tratamento dever-se-á adequar a cada indivíduo. Pode também ser importante contar com o apoio dos familiares.
Alcoólicos Anónimos
Não existe nada que beneficie tanto os alcoólicos e de modo tão eficaz como a ajuda que podem proporcionar a si próprios participando nos Alcoólicos Anónimos (AA). Alcoólicos Anónimos opera dentro de um contexto religioso; existem organizações alternativas para quem deseja uma aproximação mais secular. Um alcoólico deve sentir-se bem, de preferência incorporando-se num grupo onde os membros partilham outros interesses para além do alcoolismo. Por exemplo, algumas áreas metropolitanas têm grupos de Alcoólicos Anónimos para médicos e dentistas e outras profissões e para pessoas com certas preferências, assim como para solteiros ou para mulheres e homens homossexuais.
Alcoólicos Anónimos procura um sítio onde o alcoólico em recuperação possa estabelecer relações sociais fora do bar com amigos não bebedores, os quais também servem de apoio quando surja de novo a necessidade imperiosa de beber. O alcoólico ouve as confissões dos outros ao grupo inteiro relativamente ao modo como estão a lutar dia a dia para evitar beber um copo. Finalmente propondo meios para que o alcoólico ajude os outros, Alcoólicos Anónimos permite que a pessoa construa uma confiança e uma auto-estima que antes só encontrava bebendo álcool.
Tratamento farmacológico
Por vezes, o alcoólico pode recorrer a um medicamento para evitar consumir o álcool. Pode prescrever-se um fármaco chamadodissulfiramo. Este medicamento interfere com o metabolismo do álcool, provocando acumulação de aldeído acético, um metabolito do álcool no sangue. O aldeído acético é tóxico e produz rubor facial, dor de cabeça pulsátil, aumento do ritmo cardíaco, respiração acelerada e sudação durante 5 a 10 minutos depois de a pessoa ingerir álcool. As náuseas e os vómitos podem apresentar-se de 30 a 60 minutos depois. Estas reacções incómodas e potencialmente perigosas duram entre uma e três horas. A incomodidade pela ingestão de álcool depois de tomar dissulfiramo é tão intensa que poucas pessoas se arriscam a tomar álcool, mesmo a pequena quantidade utilizada nalguns preparados de venda livre contra a tosse e o catarro ou nalgumas comidas.
Um alcoólico em recuperação não pode tomar dissulfiramo logo que deixar de beber; o medicamento só pode ser tomado depois de alguns dias de abstinência. O dissulfiramo pode afectar o metabolismo do álcool de 3 a 7 dias depois da última dose do fármaco. Por causa da intensa reacção ao álcool associada com o tratamento, o dissulfiramo deverá ser administrado somente a alcoólicos em recuperação, os quais querem realmente ajuda e estão a querer cooperar. As mulheres grávidas ou as pessoas que têm uma doença grave não devem tomar dissulfiramo.
A naltrexona, outro medicamento, pode ajudar as pessoas a tornarem-se menos dependentes do álcool, se for usada como parte de um programa de tratamento extenso que inclua acompanhamento. A naltrexona altera os efeitos do álcool em certas endorfinas do cérebro, que podem estar associadas com a procura compulsiva e o consumo do álcool. Uma grande vantagem relativamente ao dissulfiramo é que a naltrexona não produz mal-estar. Uma desvantagem é que a pessoa que toma naltrexona pode continuar a beber. As pessoas com hepatite ou outra doença hepática não devem tomar naltrexona.
| Efeitos do álcool nos não alcoólicos | |
| Nível de álcool no sangue | Efeitos |
| 0.05 (50 mg/dl*) | Facilitação da relação social; tranquilidade. |
| 0.08 (80 mg/dl) | Coordenação diminuída (redução das capacidades físicas e mentais). Diminuição de reflexos (ambas dificultam uma condução segura) . |
| 0.10 (100 mg/dl) | Alteração perceptível da coordenação. |
| 0.20 (200 mg/dl) | Confusão. Diminuição da memória. Alteração importante da estabilidade (não consegue permanecer de pé). |
| 0.30 (300 mg/dl) | Perda de consciência. |
| 0.40 (400 mg/dl e mais) | Coma, morte. |
| Consequências a longo prazo do consumo de álcool | |
| Tipo de défice | Efeito |
| Nutricional | |
| Valores baixos de ácido fólico | Anemia, defeitos congénitos. |
| Valores baixos de ferro | Anemia. |
| Valores baixos de niacina | Pelagra (lesões cutâneas, diarreia, depressão). |
| Gastrointestinal | |
| Esófago | Inflamação (esofagite), cancro. |
| Estômago | Inflamação (gastrite), úlceras. |
| Fígado | Inflamação (hepatite), cirrose, cancro. |
| Pâncreas | Inflamação (pancreatite), baixos valores de açúcar no sangue, cancro. |
| Cardiovascular | |
| Coração | Ritmos cardíacos anormais (arritmia), insuficiência cardíaca. |
| Vasos sanguíneos | Hipertensão arterial, arteriosclerose, acidentes vasculares cerebrais. |
| Neurológico | |
| Cérebro | Confusão, coordenação reduzida, memória de curto prazo limitada (recordações escassas dos acontecimentos recentes), psicose. |
| Nervos | Deterioração dos nervos que controlam os movimentos nos braços e nas pernas (diminuição da capacidade de andar). |



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