12 setembro 2011

Diversão sem Álcool - Guilherme Sell -


COMPORTAMENTO

Diversão sem álcool

Indo na contramão da cultura que já naturalizou o consumo de bebidas alcoólicas, alguns jovens preferem outras formas de diversão, que também permitem relaxar, dar boas risadas e aproveitar a companhia dos amigos.
Jovens reunidos em uma mesa de bar para conversar, trocar ideias, relaxar e se divertir. Muitas cervejas, doses e, entre os copos, um refrigerante. Parece mentira, conduta religiosa ou proibição da lei seca? Pode até ser, mas, para alguns jovens, não ingerir bebidas alcoólicas é uma opção que está mais ligada a um estilo de vida do que a alguma determinação.
Aos 23 anos, Guilherme Sell faz parte da exceção. Nunca foi muito adepto ao álcool. Há cinco anos prefere não beber. “Mesmo assim não sou radical e nem recrimino quem bebe. Pelo contrário, saio normalmente com meus amigos”, afirma.
Depoimento
Garçom, um copo de risadas, por favor!
Luciane Horcel*
“Imagine se a Luciane bebesse...”. Já ouvi muito essa frase. Isso porque sou do tipo que não precisa de sequer uma gota de álcool para me animar, agitar uma festa inteira e fazer todo mundo dar risadas das histórias mais inusitadas (eu sempre tenho uma “novinha em folha” para contar).
Troco a cerveja por um copo de risadas, mas não pense que sou daquelas que sabe contar piada (aliás, quase nunca me lembro de uma). Eu nem sei bem onde está minha graça. Acho que é esse meu jeito de exagerar tudo, falar na companhia de muitos gestos, caras e bocas e a tendência natural ao bom humor.
O problema é que o meu processo de extroversão é parecido com o do povo que bebe. Eu não chego já gritando “uhhhuu” da porta da festa. Primeiro vejo qual o clima, me junto aos conhecidos e aí sim começa a palhaçada. Se vejo que o povo não está para bons amigos, me contenho, faço pose, me comporto direitinho...
Vale deixar claro que não sou avessa à bebida. Ser a sóbria do grupo tem lá seu preço. Na fase das baladas, eu era aquela que tinha que aguentar as amigas bêbadas. Mesmo assim, isso nunca foi um martírio pra mim, afinal, no dia seguinte, era eu quem tinha as histórias (com riqueza de detalhes), de cada uma delas para fazer o povo rolar de rir.
* Repórter do caderno de Turismo.
Guilherme conta que seus motivos para deixar de beber foram escolhas pessoais, sem a influência de outras pessoas. Mesmo na faculdade, com grandes festas movidas a muita bebedeira, ele ficava tranquilo sem bebidas alcoólicas, mas não escapava das piadas dos colegas. Contaa que não teve dificuldades para ficar sem álcool, mas sentiu um pouco de pressão de amigos e conhecidos. “O pessoal desconfia de quem não bebe. Acha que estou ali para vigiar ou então entregar e controlar quem fizer alguma besteira”, explica.
Para a psicóloga Cleia Olivei­ra Cunha, a presença do álcool na nossa cultura é indiscutível e é difícil encontrar quem não beba uma cerveja ou outra bebida alcoólica. “A sociedade está cercada pelo álcool. A conduta de beber é algo naturalizado, está ligada ao relaxamento e à comemoração. Muitos en­­contros e eventos são esquematizados como justificativa para beber”, afirma a psicóloga.
De acordo com ela, a família e os amigos são os grandes in­­fluenciadores dessa atitude. “Ho­­je você pega um copo de uísque em casa como quem vai à geladeira e pega um suco. Entre os jovens, isso fica ainda mais grave, pois os porres e problemas causados pelo excesso de bebida passam a ser vistos como diversão”, alerta Cleia. No caso de Guilherme, por não beber, ele acaba tendo um pouco mais de responsabilidade dentro da sua turma. “Virei o motorista do pessoal, dou carona para todo mundo. Até as mães dos meus amigos sabem que eu não bebo e confiam em mim, sou quase um anjo da guarda”, brinca.
Cleia alerta que os jovens estão muito mais suscetíveis à influência do álcool por não sentirem seus efeitos nocivos imediatamente, pois geralmente os prejuízos se apresentam apenas ao longo dos anos. “Um jovem que sai e bebe durante a semana, antes de uma aula ou prova, consegue realizar suas atividades com relativa normalidade. Po­rém, com a idade ele já não apresenta a mesma disposição e o rendimento nos estudos e no trabalho fica prejudicado”, afirma.
Quem pretende diminuir a frequência com que consome bebidas alcoólicas ou mesmo parar de vez deve procurar novas formas de diversão que não estejam ligadas a bares e sirvam co­­mo estímulo para se descobrir outras formas de prazer. “Hábitos mais saudáveis, como a prática de esportes, podem ser um incentivo a mais para deixar o álcool de lado”, afirma Cleia.
Guilherme conta que mudou um pouco sua rotina, que agora está muito mais ligada a outras atividades do que ao hábito de beber. “Comecei a frequentar lugares que ofereciam mais atrativos culturais. Conheci uma no­­va Curitiba, outros bares e outras maneiras de curtir a noite. Tem gente que se tiver bebida qualquer lugar está bom, para mim isso mudou”, explica.



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