08 novembro 2011

Alcoolismo Feminino - Nada Elegante


Alcoolismo cresce entre mulheres.

Julho de 2011

IBGE aponta que consumo aumentou nos últimos quatro anos. Em Goiás, 15% das entrevistadas afirmaram ser dependentes,

Pesquisa realizada nas capitais brasileiras, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o alcoolismo tem crescido no País, principalmente entre as mulheres. Nos últimos quatro anos, passou de 8,2% para 10,6% o quantitativo da população feminina que abusa da bebida. Em Goiás, 15% das mulheres disseram ter problemas com o álcool. Especialistas afirmam que este número pode ser bem maior, já que a bebida é liberada no Brasil e muitos têm o ato de beber como prática normal do cotidiano.
O Brasil tem um dos números mais altos do mundo de dependentes, perdendo só para países como Estados Unidos, com mais de 20 milhões de alcoolátras e alguns países europeus e asiáticos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O Ministério da Saúde (MS) realizou pesquisas em todas as capitais brasileiras, divulgada no início deste ano, que evidenciam que, entre os adultos, nos últimos quatro anos, o aumento foi de 16,2% para 18%, entre os homens. Já a ingestão do álcool entre as mulheres passou de 8,2% para 10,6%, entre os anos de 2006 e 2010. Assim como a internação feminina para tratamento do alcoolismo aumentou em um ano, 7,6%. Entre os homens, esse número diminuiu cerca de 2%.
Segundo o médico especialista em dependência química, Jeziel da Silva, o álcool tem entrado na vida das mulheres em várias circustâncias. Na maioria das vezes, a bebida é usada como válvula de escape para depressão e problemas amorosos. “Normalmente a mulher que abusa do álcool tem um companheiro que também faz isso. Mas, em tratamento, temos mais o público feminino que procurou a bebida devido a uma desilução, problemas, algo assim.” Acrescenta que, no cotidiano, apesar das jovens não procurarem tratamento, observa que o compartamento da mulher mudou. “Elas estão bebendo mais, cada vez mais cedo, abusando muito do álcool, que é muito mais perigoso, já que a mulher que usa o álcool está muito mais sujeita à violência, tolera, por exemplo, muito mais uma agressão e outros riscos”, destaca o especialista.
O alcoolismo é uma doença crônica, que atinge o organismo e pode causar grandes danos psiquiátricos. O álcool é uma substância que tem poder de penetração em todos os tecidos do corpo humano e pode atingir vários órgãos, como pâncreas, fígado, sistema nervoso e coração. As mulheres têm maior sensibilidade à bebida do que o homem, diz o especialista. E um dos problemas são as mudanças nos hormônios - que estão desde a mudança no ciclo menstrual a ciclos sem ovulação, o uso do álcool dificulta a gravidez. E o seu uso, durante a gestação, pode proporcionar graves problemas no feto, até em quantidades pequenas, que vão desde a má formação, abortos e baixo peso fetal; risco também presente na amamentação. 

PerdasC., 60 anos, diz que a bebida ainda não trouxe nenhum problema físico à ela, mas grandes perdas morais já são contabilizadas. A mulher revela que o álcool pareceu ser solução, mas lhe trouxe muito mais desilusões.
“Na juventude, eu bebi, meu filho tinha um ano quando terminei um relacionamento amoroso, fiquei muito triste, eu bebi. Depois fiquei vinte anos sem tocar no álcool, mas tive uma recaída. Quando descobri que meu companheiro tinha uma outra filha, fora do relacionamento. Lembro que saía do serviço, pegava o dinheiro, comprava pinga e me trancava em casa, sozinha eu bebia”, narra a senhora que está pela quinta vez em tratamento.
O médico Jeziel da Silva, um dos especialistas do Hospital Eurípedes Barsanulfo, diz que cuidar do alcoolismo é muito caro, por ser uma doença crônica, que não tem cura e sim tratamento. “Há uma série de medidas que devem ser observadas. É preciso tratar o que leva o paciente a beber, assim como todas as complicações que a doença causa. Não é só desintoxicar o paciente e sim cuidar para que ele não busque a bebida. No primeiro ano de tratamento, estimamos que em torno de 70% dos alcoolátras em tratamento não voltam a beber, só que isso pode acontecer em outros períodos e a recaída não pode ser vista como derrota”, diz.
Para ele, tratar o alcoolismo num país em que a bebida é colocada como referência de bem-estar, até mesmo de saúde, é muito complicado. Ele destaca que muitos ídolos dos jovens eram abusadores de bebidas, como Raul Seixas e Amy Winehouse. “É preciso, agora, mostrar que a bebida também tem outro lado. É também aquela moça que, aos 27 anos, tinha tudo para ser feliz, bem sucedida, foi destruída pouco a pouco, pelo álcool”, diz.

DestiladosO álcool está bem presente no cotidiano do País. O Ministério da Agricultura afirma que o Brasil é maior consumidor do mundo de destilados . São consumidos cerca de 65% do total de um bilhão de litros de cachaça brasileira produzidos. A outra parte vai para a exportação. A pinga é uma das bebidas alcóolicas mais produzidas e consumidas no Brasil. Em pesquisa sobre os hábitos alimentares do País, divulgada pelo IBGE nessa semana, mostra que se consome mais cerveja do que feijão. São cerca de 50,7 Kg de bebidas contra 39 kg de cereais e leguminosas consumidas em média por cada brasileiro. 

MenoresOs dados também revelam que o consumo de bebida alcóolica entre os jovens tem crescido. A Associação Brasileira de Alcoolismo diz que a doença atinge muito na faixa etária de 25 a 40 anos, mas o consumo tem crescido entre os menores de idade.
O especialista da Casa de Eurípedes diz que, em mais de vinte anos de funcionamento, a instituição tem recebido cada vez pacientes mais jovens. O número de dependentes, segundo ele, pode ser maior, porque esse público não costuma procurar auxílio, por achar que o abuso da bebida é parte do cotidiano. “Temos pacientes com menos de vinte anos dependentes da bebida e não só isso; o álcool é um grande risco para estes bebedores tão jovens, que ainda têm o sistema nervoso em formação e, assim, o risco de dependência é muito maior.” 
O médico destaca que o abuso do álcool também tem levado os jovens a cometerem atos de violência e até serem vítimas ou causadores de acidentes de trânsito. “Sem falar que o álcool também pode ser a porta de entrada a outras drogas, como o crack.”
O conjunto de problemas relacionados ao uso excessivo e prolongado do álcool não é só a dependência. O estágio avançado da dependência pode acarretar problemas mais graves. Crises de abstinência são capazes de levar o paciente até mesmo para UTI. Pode também fazer com que o alcoolátra deixe de comer ou fazer qualquer outra atividade, simplesmente para beber. “As bebidas alcoólicas são extremamente calóricas, apesar de não possuírem nenhum nutriente. O álcool tem que ser visto com muito cuidado em todos os casos, até quem consome pouco.”
L., 58 anos, pela sexta vez procura tratamento. A bebida entrou em sua vida nas festinhas de juventude e transformou-se num grande problema. “A primeira vez que bebi foi aqueles ponches em festas, aí veio a cerveja com os amigos e outras bebidas”, lembra-se. Ele conta ainda que já perdeu empregos por causa do álcool. “Até quando trabalhava de forma autônoma tive problemas, agora novamente perdi mais um emprego. Viajei com os amigos para pescar e tive uma recaída. Tenho medo de que até o relacionamento com a minha mulher seja destruído por causa da bebida”, fala entre lágrimas, o paciente que busca ajuda para largar o vício.
TratamentoA ajuda profissional é importante no tratamento do alcoolismo, mas o especialista fala também da importância dos grupos de ajuda e principalmente da família. “Os grupos de ajuda são usados para que o paciente perceba que há também outros casos como o dele, este compartilhar é importante.” 
O médico destaca a importância de auxiliar o alcoolátra no tratamento da doença, que alcança vários problemas decorrentes do uso abusivo da doença, podendo ocasionar até câncer. A família é aquela que recebe, que muita das vezes é o sustento”, afirma Jeziel. 
C. comenta o quanto a ajuda do filho de 27 anos é importante em seu tratamento, que a ajudou quando não conseguia mais ficar de pé sozinha. “Já cheguei na clínica de cadeiras de rodas, sei que às vezes meu filho sentiu vergonha da bebida, mas ele que sempre me apoiou. Ele me auxilia, assim como todos que sempre me ajudaram”, conta a paciente. L. diz que a família sempre foi o motivo para ele buscar ajuda. “ A gente bebe consciente, sabendo o mal que fazemos a nós mesmos. Mas, no final, prejudicamos muito mais as pessoas que gostam da gente, como esposa, mãe, filhos” diz.
Ele se lembra, então, da última vez que a esposa pediu para que ele se tratasse. “Ela pediu para me lembrar de que isso também machucava minha mãe. Quero meu casamento. Até o pessoal da empresa onde trabalhava torcem para me ver melhor”, conta L., que também é avô de três crianças, uma de seis, outra de três e um bebê de nove meses.
Saiba maisDoenças ligadas ao consumo do álcoolO álcool é um depressor do Sistema Nervoso Central e age diretamente em diversos órgãos, tais como fígado, coração, vasos e parede do estômago
cirroses hepáticas
hepatites crônicas
doenças cardiovasculares
hipertensão
câncer
Efeitos do ÁlcoolA Associação Médica Americana (The Americana Medical Association) considera que 0,04 gramas/100 mL de sangue é capaz de trazer prejuízo ao indivíduo.
350 mL de cerveja,150 mL de vinho e 50 mL de destilado contém, aproximadamente, 10 g de álcool puro



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