28 dezembro 2011

Naltrexona e Topiramato - Medicamentos para tratamento do alcoolismo

Dados Científicos

Comparação entre topiramato e naltrexona no tratamento da dependência alcoólica
O alcoolismo é uma doença crônica que está entre as principais causas de mortalidade e incapacidade em todo mundo. No Brasil, aproximadamente 11% da população adulta apresenta sintomas de dependência alcoólica, uma parcela expressiva de nossa sociedade. O tratamento do alcoolismo, tradicionalmente focado em intervenções psicossociais, atualmente tem incorporado estratégias farmacológicas, comumente empregadas para tratar os sintomas da abstinência. Dentre eles, poucos medicamentos têm sido capazes de controlar, a longo-prazo, o abuso e a dependência de álcool.
 
Dois medicamentos têm sido apontados como possíveis promessas ao tratamento do alcoolismo: topiramato e naltrexona. O topiramato é um anticonvulsante que facilita a ação inibitória do neurotransmissor GABA (nos receptores não-benzodiazepínicos) e reduz a ação excitatória sobre os receptores de glutamato. Por sua vez, a naltrexona atua sobre o sistema opióide, bloqueando os efeitos de recompensa do álcool, evitando recaídas.  
 
Em vista disso, o presente estudo teve como objetivo comparar a eficácia desses dois medicamentos no tratamento do alcoolismo. Participaram da pesquisa 155 pacientes, do sexo masculino, entre 18 e 60 anos de idade, diagnosticados como alcoolistas (critérios do CID-10; Classificação Internacional de Doenças). Após uma semana de desintoxicação, os pacientes foram aleatoriamente destinados à composição de três grupos (tratados por um período de 12 semanas): (a) topiramato (300 mg diários) (n=55); (b) naltrexona (50 mg diários) (n=49); (c) placebo (n=54). Os critérios utilizados para medir as diferenças entre os grupos foram: (a) tempo da primeira recaída (número de semanas; até o primeiro consumo superior a 60g de etanol) (b) número de semanas de abstinência completa; (c) número de semanas de uso pesado de álcool (consumo de mais de 90g de etanol) e, finalmente (d) relatos sobre a existência de efeitos colaterais.
 
O grupo tratado com topiramato apresentou uma proporção significativamente maior de indivíduos abstinentes, comparado ao grupo placebo, após 4 semanas (67,3% vs. 42,6%) e 8 semanas de tratamento (61,5% vs. 31,5%). No entanto, transcorridas as  12 semanas, a diferença deixou de ser estatisticamente significativa (46,2% vs. 27,8%). Entre esses grupos, diferenças também foram observadas para outras medidas: (a) tempo para a primeira recaída (7,8 e 5 semanas, respectivamente); (b) duração do período de abstinência (8,2 e 5,6 semanas, respectivamente) e (c) número de semanas de consumo pesado de álcool (3,4 e 5,9 semanas, respectivamente). Não foram observadas diferenças significativas entre o grupo naltrexona e placebo, tampouco entre os grupos naltrexona e topiramato, embora os pacientes tratados com topiramato tenham apresentado resultado melhor  em todas as medidas (talvez a diferença entre os grupos naltrexona e topiramato alcançasse significância estatística se a amostra recrutada fosse maior). .
 
Embora não tenha sido considerada obrigatória para inclusão no estudo, os pacientes tratados com topiramato participaram mais ativamente de grupos de auto-ajuda (Alcoólicos Anônimos – AA) que os pacientes tratados com naltrexona (19,2% vs. 4,1%, respectivamente).
 
Conforme os autores, uma explicação plausível para as diferenças observadas entre o topiramato e naltrexona seja a amplitude de ação do topiramato, que atua sobre a redução da impulsividade, ansiedade e mudanças no humor vigentes na situação de abstinência alcoólica, enquanto que a naltrexona parece ser útil, especificamente, à diminuição da “fissura” por álcool.
 
Finalmente, embora o emprego de topiramato ainda não tenha sido aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration), sua ação farmacológica sugere que seja uma alternativa eficaz para o tratamento do alcoolismo, possibilitando maior adesão do paciente não só ao tratamento farmacológico, mas a outros tipos de intervenção.
 
Título: Comparação entre topiramato e naltrexona no tratamento da dependência alcoólica
 
Autores: Danilo Antonio Baltieri, Fabio Ruiz Daró, Philip Leite Ribeiro e Arthur Guerra de Andrade
 
Fonte: Addiction (ahead of print)


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