16 janeiro 2012

John Cheever - O Alcoolismo, o casamento e o homosexualidade


O escritor americano John Cheever, que recebeu o Prémio Pulitzer de ficção em 1979 e morreu em 1982, registrou mais da metade da sua vida em um diário secreto, descoberto e publicado recentemente.  Em textos fortes e belos Cheever  fala do seu  casamento, da pré-disposição ao alcoolismo e de sua bissexualidade clandestina.
O livro ainda não foi publicado no Brasil, mas a edição nº 53 da revista Piauí trouxe trechos da obra traduzida por Daniel Galera. Veja o que Cheever diz:

Sobre a vida sem sentido:
Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você
toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia.

Sobre o casamento:
Mary (esposa de Cheever) maldisposta hoje cedo, mas então penso como é maravilhoso que o casamento possa comportar uma tamanha profusão de equívocos, tempestades, infidelidades, rios de lágrimas e mesmo assim seguir seu rumo, passageiros com alguns arranhões leves, mas nada grave.

Sobre o homosexualismo:
Esse foi o ano  (1959) em que todo mundo nos Estados Unidos estava preocupado com o homossexualismo. Havia outras preocupações também, mas os outros anseios eram publicados, discutidos e trazidos à tona, enquanto os anseios ligados ao homossexualismo permaneciam no escuro, inconfessos. Será que ele é? Que ele foi? Que eles fizeram? Que eu sou? Que eu poderia ser? Era o que todos pareciam estar pensando. A título de defesa, deu-se uma grande ênfase à virilidade, ao atletismo, à caça, à pesca e ao vestuário conservador, mas a esposa solitária desconfiava de relance do marido que tinha ido ao acampamento de caça, e o próprio marido desconfiava do outro com quem havia dividido uma cama rústica de folhas de pinheiro. Será que ele é? Que ele já? Que ele tinha? Que ele queria? Que alguma vez? Mas o que eu realmente queria dizer é que isso é patético. Um homem pode ter culpa, mas apenas gente absurdamente reprimida se comporta dessa maneira.

Sobre a literatura:
A literatura sempre foi a salvação dos condenados; a literatura, a literatura inspirou e orientou os apaixonados, derrotou o desespero, e talvez possa, nesse caso, salvar o mundo.


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