30 janeiro 2012

Uma mistura que mata - Álcool e Direção


Álcool e direção matam

Combinação vitima todo ano 1,2 milhão de pessoas; situação está longe de uma solução

18/01/2012

fonte : Carro Online

As estatísticas do trânsito brasileiro apresentam um número estarrecedor: mais de 20 mil pessoas morrem por ano no Brasil por dirigir depois da ingestão de álcool. A informação é de Mauro Augusto Ribeiro que, como presidente da Associação Brasileira da Medicina de Tráfego (Abramet), é um dos grandes defensores de leis mais rígidas ligadas ao consumo de álcool por motoristas brasileiros.

Na verdade, trata-se de uma preocupação internacional. Segundo a publicação “Alcoolemia e Direção Veicular Segura”, editada pela Abramet, os acidentes de trânsito são a 10ª maior causa de mortes no planeta, vitimando 1,2 milhões de pessoas ao ano e ferindo de 20 a 50 milhões. A estimativa é de que 50% dessas vítimas estavam alcoolizadas na hora do acidente. E a situação é mais grave nos países em desenvolvimento, como os da América Latina, onde se encontram as maiores taxas de fatalidades no trânsito de todas as regiões do mundo: 26,1 mortes para cada 100.000 habitantes.

Esses dados dão uma certeza: o consumo de álcool associado ao tráfego precisa ser combatido de maneira eficaz. Não é o que acontece no Brasil – mesmo com a implantação da Lei Seca em junho de 2008, que vem provocando muitas dores de cabeça aos baladeiros dos centros urbanos do país.
 
Na Lei Seca, a infração por dirigir sob o efeito de álcool passou a ser considerada um crime de trânsito, sujeitando o infrator não apenas à multa, mas também à apreensão do veículo, suspensão do direito de dirigir e cassação da habilitação. Para que uma dessas penalidades seja executada, basta que o motorista esteja com uma concentração de álcool acima do limite de 0,2 gramas por litro de sangue. “Isso corresponde a uma lata de cerveja, ou uma taça de vinho ou uma dose de destilado”, diz Mauro Ribeiro. Ultrapassar 0,6 gramas de álcool por litro de sangue (três latas de cerveja) pode acarretar prisão. Ribeiro explica que as variações individuais são determinadas por peso, altura e circunstâncias em que o álcool foi consumido — com água, ou com alimentos, a taxa diminui.

Estudos apontam que a probabilidade de um indivíduo sob efeito de álcool ser vítima de acidente fatal é sete vezes maior que de uma pessoa sóbria. A alcoolemia é apontada como responsável por 53,7% dos óbitos ocorridos em acidente de trânsito em cidade, a maioria entre 18 anos e 35 anos e do sexo masculino. O principal tipo de acidente é a capotagem.

Ainda que a lei possa parecer rígida — nos EUA, o limite é de 0,8 g — e de ser contestada por muitos motoristas, Mauro Ribeiro não acredita que ela seja. Isso porque a lei não impõe ao motorista a obrigatoriedade de se fazer o teste do bafômetro. “É uma falha”, diz. “A lei favorece aqueles que têm dinheiro. Quem não quiser fazer o teste, sofre um processo administrativo e, se tem recursos, contrata um advogado”. 

Apesar desse “detalhe” da lei, o policiamento rodoviário vem buscando cumpri-la. Em 2010, a iniciativa chamada Direção Segura efetuou 2.396 operações de controle de alcoolemia, utilizando o chamado “teste do bafômetro”, autuando 2.885 motoristas por conduzirem veículo em “estado de embriaguez”.

Esse número, só no primeiro semestre de 2011 já estava em 2.440 autuações, segundo a corporação da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Diante do quadro causado pela alcoolemia nos acidentes de trânsito e nas mortes em todo o mundo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu, recentemente, uma recomendação constrangedora: a de que um terço dos condutores tivessem o nível de álcool no sangue examinado a cada ano, para que os acidentes provocados por embriaguez fossem reduzidos pela metade.

Segundo Mauro Augusto Ribeiro, porém, a palavra certa não é embriaguez. Afinal, o álcool prejudica a capacidade de dirigir mesmo que o indivíduo não apresente os sintomas típicos da bebedeira. “É um neurodepressor, pois deprime as funções cerebrais, cognitivas e motoras, exatamente aquelas necessárias para conduzir um veículo”, ressalta. O que piora a situação é que o motorista alcoolizado não percebe que perdeu parte de sua capacidade de dirigir.

Segundo o estudo da Abramet, 22,9% dos condutores autuados por alcoolemia acreditavam que a bebida não influenciava negativamente sua capacidade de dirigir, ainda mais quando adotavam medidas tidas como protetoras, como tomar café e dirigir com mais cautela. Não é bem assim. “O álcool prejudica a visão noturna, diminui a capacidade de análise de risco e prejudica a noção de espaço e movimento. Além disso, o alcoolizado é mais ousado, corre mais e deixa de ter cuidados simples, como usar o cinto de segurança”, revela o presidente da associação.

Hoje, uma das questões que mais afligem o motorista é a sensação de que o álcool virou um pretexto para a indústria de multa. Para Ribeiro, isso faz um certo sentido. “A política de punição não é educativa. A meu ver, o condutor alcoolizado deveria receber apenas uma advertência por escrito. E só em caso de reincidência é que seria severamente punido. Isso daria a sensação de que o combate ao uso do álcool é também preventivo”, conclui o presidente da Abramet.

Sete vezes maior é a chance de uma pessoa embriagada se envolver em acidente.

5 verdades sobre o uso de álcool:
• A alcoolemia no trânsito é uma das maiores causas de morte no Brasil e no mundo.
• O Brasil ainda está longe de ter uma cultura que respeite a impossibilidade de conduzir veículos após a ingestão de álcool.
• As leis e punições utilizadas atualmente não estimulam essa cultura e não apresentam a eficácia desejada.
• Ainda que não haja nenhum sintoma dos efeitos do álcool, o motorista que bebeu, mesmo pequenas quantidades, tem sua capacidade de conduzir o veículo reduzida.
• Estima-se que o custo da alcoolemia no tráfego, para os países em desenvolvimento, seja da ordem de 1% a 2% do seu PIB (Produto Nacional Bruto).

Realidade dura de admitir
Segundo a Abramet, quase 23% dos motoristas autuados embriagados acham que a bebida não interfere na capacidade de dirigir. Eles acreditam que um cafezinho pode resolver o problema.

Efeitos de Alcoolemia no organismo:
0,1 – 0,5 (gramas de álcool por litro de sangue)
● Aumento do ritmo cardíaco e respiratório
● Diminuição das funções de vários centros nervosos
● Comportamento incoerente ao executar tarefas
● Diminuição da capacidade de discernimento e perda da inibição
● Leve sensação de euforia, relaxamento e prazer

0,6 – 1,0
● Entorpecimento fisiológico de quase todos os sistemas
● Diminuição da atenção e da vigilância, reflexos mais lentos, dificuldade de coordenação e redução da força muscular
● Redução da capacidade de tomar decisões racionais e do discernimento
● Sensação crescente de ansiedade e depressão
● Diminuição da paciência

1,0 – 1,15
● Reflexos consideravelmente mais lentos
● Problemas de equilíbrio e de movimentação
● Alteração de algumas funções visuais
● Fala arrastada 
● Vômito, sobretudo se esta alcoolemia for atingida rapidamente

1,6 – 2,9
● Transtornos dos sentidos, inclusive consciência reduzida dos estímulos externos
● Alterações graves da coordenação motora, com tendência a cambalear e a cair frequentemente

3,0 – 3,9
● Letargia profunda
● Perda de consciência
● Estado de sedação comparável ao de uma anestesia cirúrgica
● Morte (em muitos casos)

A partir de 4,0
● Inconsciência
● Parada respiratória
● Morte, em geral provocada por insuficiência respiratória

Fonte: Beber e Dirigir: manual de segurança viária para profissionais de trânsito e saúde. Genebra, Global Road Safety Partnership

Na maioria dos países de alta renda, uma média de 20% dos motoristas mortos em acidentes têm uma concentração de álcool no sangue superior ao autorizado por lei. Esse número contrasta com os registrados em países de baixa e média rendas, onde de 33% a 69% dos condutores mortos estão sob o efeito de álcool.

Perfil de quem consomeVárias pesquisas forneceram um quadro coerente dos condutores mais propensos a consumir bebidas alcoólicas antes de dirigir. Esses motoristas apresentam, com frequência, as seguintes características:
• sexo masculino
• entre 18 e 24 anos de idade
• originários de camadas 
   socioeconômicas baixas
• solteiros ou divorciados
• atividade profissional 
   não qualificada
• nível de escolaridade baixo
• baixa autoestima

Fonte: Beber e Dirigir: manual de segurança viária para profissionais de trânsito e saúde. Genebra, Global Road Safety Partnership

Veja a conclusão do nosso repórter - Roberto Amado
A restrição ao uso do álcool relacionado à direção de veículos é um conceito relativamente novo no Brasil. Ainda estamos longe de criar uma cultura que respeite essas restrições e de incorporá-las na nossa vida. E, além das punições, não há, de fato, uma campanha educativa aprofundada para que essa cultura seja criada — como já foi feito com o cinto de segurança e, fora do âmbito do trânsito, com o consumo de cigarros. Por um lado, a preocupação do governo é apenas reprimir os consumidores de álcool por meio da fiscalização e punição.

Por outro, os motoristas se preocupam apenas em driblar a fiscalização, sem fazer uma mudança necessária em seus hábitos. Uma terceira parte, a dos estabelecimentos noturnos, como bares e restaurantes, deveria oferecer opções cômodas para que seus clientes deixem o carro em casa, o que acontece com pouquíssima frequência. Até as prefeituras poderiam colaborar nesse sentido criando linhas de transporte coletivo que atendam as regiões com maior movimento noturno.






Nenhum comentário:

Postar um comentário