29 fevereiro 2012

Álcool e Homicídio


Relação entre álcool e homicídio é maior no centro


O Estado de S Paulo
O mapeamento das vítimas de homicídio feito pelo Departamento de Medicina Legal da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a maior correlação entre assassinato e consumo de bebida alcoólica está na área central da capital paulista. Os resultados acabam de ser publicados e a explicação para o fenômeno ser mais visível no cinturão entre os Jardins e a República do que em áreas periféricas - endereços recorrentes das mortes violentas - é que os casos com intenção de matar no centro obedecem lógica diferente do restante da cidade.
Túlio Kahn, coordenador de Planejamento da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo - e um dos autores da pesquisa da USP -, cita algumas especificidades dos homicídios na região central. A área é o local em que há o maior número de casos de morte por arma branca (27% contra 5% na zona sul). Nos dados da pesquisa da USP foi evidenciado que 60% das vítimas dos assassinados por porretes, faca ou qualquer outro objeto estavam alcoolizadas. Já os mortos por arma de fogo com alcoolemia positiva chegaram a 40%. "As mortes por arma branca tendem a ser mais impulsivas e, portanto, mais relacionadas ao álcool", afirmou Gabriel Andreuccetti, outro autor do estudo da USP.
Outra característica dos homicídios no centro é que 12% dos mortos são mulheres, três vezes mais do que no restante da cidade, uma evidência da "passionalidade" dos crimes da região. Além disso, 35% dos que morrem nessas áreas não moram por lá e residem em distritos afastados. "E os bares na região central ficam abertos por mais tempo, alguns 24 horas, diferentemente da periferia, em que uma hora fecham. Por isso, existe uma maior probabilidade de associação entre álcool e vítima", disse Kahn.
Há quase 900 dias, a família e os amigos de John Clayton Moreira Batista convivem com a dor, por causa desse perfil de criminalidade. Foi um bar na esquina da Alameda Lorena com a Rua da Consolação que serviu de cenário para o assassinato de John, na época com 19 anos. Ele tomava uma cerveja com os amigos, em 22 de junho de 2007, quando foi atacado a facadas por um grupo de jovens de mesma idade que costumavam "aterrorizar" a região. John não estava embriagado. O promotor do Ministério Público de São Paulo (MP) Maurício Antônio Ribeiro Lopes - que conduz o caso de John - informou que o julgamento dos cinco agressores indiciados pelo crime está marcado para 13 de janeiro.
Júlia Toro, de 24 anos, e Tony Marlon, de 25 anos, dois ativistas que participam de uma série de projetos para também conter a criminalidade juvenil, avaliam que os jovens enxergam tanto as armas como as bebidas alcoólicas (e as outras drogas em geral) como um caminho para ganhar status. "Quando há problemas com a autoestima, a arma e a droga são sedutores", diz. "O álcool e a violência são intimamente ligados porque dão a falsa ideia de poder. Isso é ainda mais perigoso em uma sociedade carente de oportunidades."
A pesquisa da USP mostrou que, em toda cidade e independentemente da idade, 43% das vítimas de homicídio tinham bebido na noite em que foram assassinadas. Entre os menores de 18, o índice é de 17%. Em 91% dos casos, os mortos apresentaram concentração de álcool no sangue acima de 0,6 g/l, dosagem que na legislação de trânsito rende prisão. "Não pensar em políticas efetivas para conter o uso nocivo e o acesso ao álcool é facilitar outras formas de violência além do homicídio, como acidentes de carro e agressões domésticas", diz Andreuccetti.



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