21 abril 2012

Alcoolismo - Aceitação social e poder aquisitivo


Aceitação social e poder aquisitivo: as razões de quem bebe mais

Consumo abusivo de álcool é maior entre os mais escolarizados. Para especialistas, condição de vida é a explicação

Priscilla Borges, iG Brasília

Os brasileiros que mais estudaram são aqueles que mais consomem álcool. Os dados revelados pelo Ministério da Saúde na semana passada preocupam médicos e psicólogos em todo o País. Para eles, o Brasil convive com índices perigosos e não está dando a atenção devida a eles.
A pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) revelou que 20,1% da população com 12 anos ou mais de estudo bebem além do recomendado. O estudo é realizado anualmente.
Para o ministério, a ingestão, em uma mesma ocasião, de cinco ou mais doses de bebida, para homens, e quatro ou mais, para mulheres, é considerada excessiva. Os homens lideram as estatísticas do consumo abusivo de álcool: 29,2% entre os mais instruídos e 25,5% entre os menos escolarizados (menos de oito anos de estudo).
Na opinião dos especialistas, a escolaridade está ligada ao poder aquisitivo. Ter dinheiro para gastar com bebidas alcoólicas, segundo eles, determina a grande quantidade de pessoas que consomem mais álcool do que deveriam.
“O poder aquisitivo é relevante. Pressupõe-se que o jovem mais escolarizado tem mais dinheiro para gastar com bebida”, ressalta Sérgio de Paula Ramos, psiquiatra e coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre.
Os jovens são os que mais consomem bebida alcoólica de forma excessiva, de acordo com os dados do Ministério. Na faixa etária entre 18 e 24 anos, 20,5% da população admite beber além da conta. O número sobe um pouquinho entre os brasileiros de 25 a 34 anos: 20,7%.
Maria de Fátima Sudbrack, professora titular do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB) especialista em estudos e atenção à dependência química, diz que os dados desmistificam a ideia de que o alcoolismo é “doença de pobre”.
“Quem tem mais dinheiro consome tudo mais que os outros. E esse é um produto glamourizado, cujo padrão de uso é o pior possível no País: o álcool é usado para ‘matar a sede’, fora da alimentação”, analisa.
Permissividade
A diretora de Análise de Situação em Saúde do Ministério da Saúde, Deborah Malta, acredita que o comportamento faz parte da fase de descobertas dos jovens. Há muitas festas e encontros com amigos, especialmente para os que entram no ensino superior.
Maria Clara Rodrigues, 19 anos, e Janielle Custódio, 19 anos, alunas do curso de engenharia de produção da UnB, admitem que, se quiserem, vão a festinhas regadas a bebida alcoólica todos os dias. Elas frequentam esse tipo de celebração duas vezes por mês.
“Eu bebo até quando o dinheiro acaba, mas se perceber que estou me alterando, já paro”, conta Maria Clara. As duas dizem que só começaram a beber depois dos 18 anos, mas Janielle admite que os pais ofereciam uma dose ou outra em datas especiais.
“A nossa sociedade é muito licenciosa e condescendente, inclusive pais e mães, com a bebida entre jovens e adolescentes. O acesso a ela é muito fácil, o que torna maior o uso e o abuso. A vida social externa se intensificou muito e as baladas são embaladas por álcool”, critica Carlos Salgado, conselheiro da Associação Brasileira de Estudo sobre Álcool e Drogas 
(Abead).
Também integrante da Abead, Sérgio Ramos é ainda mais enfático nas críticas às políticas de comercialização de bebidas no Brasil. “O que estamos assistindo é a grave consequência da irresponsabilidade das nossas autoridades, que se submetem aos interesses da indústria do álcool para prejuízo total da população”, afirma.
Para o psiquiatra, as propagandas de bebidas alcoólicas deveriam ser proibidas. Além disso, a comercialização deveria ser mais fiscalizada, para que menores de idade não tivessem fácil acesso a elas. Deborah Malta acredita que essas políticas estão mais intensas.
“Temos grande preocupação em relação a isso, porque o consumo abusivo de álcool está associado a outras práticas de risco, como a direção após a ingestão de bebida, a violência, o sexo inseguro, fora a intoxicação alcoólica. Mas as medidas legislativas têm intensificado o combate a essas práticas”, avalia a diretora
Iniciação precoce
Sérgio Ramos reforça que o consumo de álcool começa cada vez mais cedo. Ele acaba de concluir uma pesquisa em Porto Alegre (RS) sobre o tema, que ainda não foi publicada, mas mostra que os primeiros contatos dos jovens com bebida alcoólica se dá aos 12 anos.
“Uma em cada duas crianças que começam a beber antes dos 13 anos vai se transformar em alcoolista. Fora isso, essa é uma porta de entrada para outras drogas . As famílias acham normal jovens tomarem porres. A situação é extremamente preocupante”, lamenta.
Salgado defende que a fiscalização da venda de bebidas para menores de idade precisa ser intensificada. “O sistema nervoso central dos adolescentes é muito imaturo. Se a percepção do jovem é de que não há perigo ou risco físico ou social, o hábito se implanta”, afirma.
O psiquiatra se preocupa também com as mudanças no comportamento feminino. Ainda há duas vezes mais homens que abusam do consumo de álcool do que mulheres. Porém, elas têm bebido mais do que no passado.
“Antes a menina não podia beber, mas hoje ela bebe tanto quanto ele, mas a biologia dela é menos resistente”, alerta.






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