30 abril 2012

Alcoolismo - Mulheres precisam tirar o pé do acelerador

fonte : Diário de S.Paulo
29/04/2012
LUCIANO MOURA/AGÊNCIA BOM DIA


Mulheres estão bebendo cada vez mais



Em Rio Preto, número de atendimentos relacionados ao consumo de álcool aumentou em 28% na rede pública.

A vendedora Maria (nome fictício), de 32 anos, acordou com bolhas e machucados nos pés. E o pior é que não fazia a menor ideia de como isso tinha acontecido. Além do gosto amargo de cabo de guarda-chuva na boca, a cabeça doía e o teto do quarto não parava de girar. Enquanto procurava o celular se perguntava como havia chegado em casa. 

Com muito esforço, conseguiu encontrar o aparelho e foi desesperada ver os torpedos  enviados. Havia mensagens  para ex-namorado, paquera, amigos e até para o gerente da loja de onde trabalha. Ela perdeu as contas de quantas vezes acordou sem lembrar do que havia acontecido na noite anterior.  

Dessa vez, concluiu que as bolhas se formaram porque a bota que usa estava apertada e os machucados foram causados por ir para casa descalça. Mas essa não foi a situação mais constrangedora que Maria passou quando resolveu “encher a cara” com as amigas em um barzinho. “Teve uma vez que um ficante parou três vezes o carro para eu vomitar. Nunca mais ele atendeu minhas ligações”, disse a vendedora. Mas o pior, para ela, é faltar ao trabalho por causa da ressaca.
“No dia em que não consegui ficar em pé para ir trabalhar percebi que precisava de ajuda”, disse a vendedora.

Já a empresária Carla (nome fictício), de 42 anos, que frequenta há 2 anos a Associação Antialcoólica, teve de bater o carro em um poste para “acordar”  e pedir ajuda. “O mais difícil é a mulher assumir para si mesma que é alcoólatra e precisa de tratamento. Demorei, mas consegui”, disse ela. 

É fato incontestável que, com o passar do anos, as mulheres alcançaram ou até mesmo estão superando os homens na competição social. Entretanto, elas também estão bebendo cada vez mais. Pelo menos é o que aponta um levantamento da Secretaria de Saúde de Rio Preto. Em 2010, foram 556 atendimentos de mulher com dependência química. No ano passado, este número de atendimentos saltou para 708, ou seja, um aumento de 28%.
No município, o dependente químico possui três linhas de tratamento à disposição - redução de danos, internações para desintoxicação e grupos de apoio com palestras e depoimentos.

Pesquisa
Uma pesquisa divulgada em março pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo também vem comprovar este aumento de alcoolismo entre mulheres. 

O estudo revela que há 15 anos a proporção do consumo de bebida alcoólica era de duas mulheres para cada dez homens. Hoje, são oito para cada dez. Quanto maior o grau de instrução das mulheres, maior o risco de beberem. “Este aumento está relacionado com as mudanças do papel da mulher na sociedade. E se ela tem uma melhor educação terá consequentemente  melhor renda. Isso faz com que ela tenha maior possibilidade de beber com as amigas”, diz a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, uma das organizadoras da pesquisa do HC e coordenadora do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool). 

De acordo com ela, o recomendado é que a mulher tome uma dose de bebida alcoólica um dia sim, e outro não. “Não adianta a mulher ficar sem beber seis dias e depois tomar sete doses em um único dia”, alerta a psiquiatra. 

O consumo abusivo de bebida alcoólica pode causar problemas como gastrite, complicações na vesícula ou no fígado, câncer, hepatite e cirrose. “Por questões fisiológicas, todas essas doenças se desenvolvem mais rapidamente em mulheres do que em homens que bebem”, afirma o hematologista Luis Carlos Santana.

Segundo o Cisa, para chegar a uma cirrose, por exemplo, as mulheres têm de passar pelo menos 20 anos consumindo diariamente um litro de cerveja, meio litro de vinho ou 120 mililitros de alguma bebida destilada. Já  para os homens a quantidade dobra.

Segundo o hematologista, essa diferença acontece porque o metabolismo da mulher digere o álcool de maneira muito mais rápida do que o dos homens. “O corpo feminino tem menor volume de água e mais tecido adiposo, o que resulta em ficar bêbada mais rápido e por mais tempo”, afirma ele. 

40% do álcool vendido no Brasil é consumido pela população de até 35 anos, segundo dados do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool).

2 doses diárias de bebida alcoólica aumentam em 20% as chances de se ter câncer de mama depois de um ano de consumo, segundo Ministério.
da Saúde.


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