27 maio 2012

Bebidas alcoólicas, alcoolismo & abuso


O uso de bebidas alcoólicas pelo homem se perde no tempo. A disponibilidade do álcool sempre foi muito grande, na medida em que, sendo o produto da fermentação de açúcares, pode ser facilmente obtido em qualquer região. Este fato é provavelmente parte da explicação da difusão praticamente universal das bebidas alcoólicas.
Embora, o alcoolismo e o uso abusivo do álcool sejam graves problemas de saúde pública em vários países como o Brasil, os seus impactos econômico, médico e social, ainda não foram devidamente apreciados. Assim, nos EUA, a perda econômica é da ordem de 180 bilhões de dólares anuais. Nos EUA, estima-se que 5 a 10% dos homens e 3 a 5% das mulheres tenham determinado grau de dependência ao etanol. Em nosso meio, estima-se que 12,3% da população ativa consumem bebidas alcoólicas em quantidades abusivas (CEBRID, 2008). O seu uso indevido está associado a acidentes de trabalho e de trânsito, como também constitui a principal causa de internação hospitalar nos tratamentos de dependência.

Potencial  dee Abuso  e Dependência. O etanol é citado no livro do Gênesis, na Bíblia, como um líquido extraído do suco da uva fermentado. Egípcios, gregos e romanos, já abusavam do álcool tanto quanto o homem contemporâneo. O etanol está disponível em várias bebidas e é de fácil acesso a todos, em quantidades ilimitadas.
O alcoolismo é um quadro complexo, sendo que é difícil definir critérios que distingam o chamado “beber social” da condição patológica (uso compulsivo). Os limites poderiam ser colocados apenas na frequência e na quantidade de álcool ingerido. Entretanto, no conceito atual de dependência (DMS-IV), além do fato de se ingerir bebidas alcoólicas frequentemente e em grandes quantidades, o que demarca o limite entre o bebedor social e o dependente é a perda do controle sobre o ato de beber. Isto é, quando se bebe, costuma-se levar em conta se a ingestão de álcool naquele momento é adequada; se não vai interferir com alguma atividade profissional ou social. Já para o dependente, esta opção, esta capacidade de decisão, fica perdida. Ele vai beber, independentemente das eventuais implicações para si e para os outros.
Outro aspecto importante do alcoolismo é caracterização de estágios evolutivos em inicial, intermediário, tardio e terminal e suas repercussões nas atividades sociais e ocupacionais dos indivíduos. Com relação à saúde ocupacional, os estudos têm sido centralizados nas doenças causadas pelo etanol e seus efeitos sobre o trabalho, os efeitos do trabalho sobre o consumo de álcool e as interações entre o etanol e os compostos presentes no ambiente de trabalho.
Ao longo da história, os padrões de uso de álcool têm variado entre os membros de diversas culturas. Mais recentemente, a OMS (2000) tem avaliado o consumo total de álcool per capita (vinho, cerveja e destilados) em diversos países, organizando uma escala (ranking), onde a França ocupa a primeira posição com cerca de 12,0 L per capita e em último a Índia com apenas 1,0 L. O Brasil ocupa uma posição intermediária entre os paises com 5,0 L per capita.
Tolerância. O uso crônico de álcool etílico induz algumas formas de tolerância.
A tolerância funcional requer alta alcoolemia (300 a 400 mg/dL) para produzir intoxicação. Em humanos, a tolerância funcional crônica reflete o incremento do consumo de álcool para produzir a intoxicação. Os consumidores crônicos de álcool são menos sensíveis que os abstinentes em testes de coordenação motora. A tolerância comportamental é um tipo de tolerância aprendida, que se refere a redução nos efeitos de etanol, devido a mecanismos compensatórios aprendidos. Um exemplo é o aprendizado de andar em linha reta apesar do prejuízo produzido pela intoxicação alcoólica. Em relação a outras substâncias psicoativas, existe também a chamada tolerância cruzada entre o etanol e os fármacos depressores do SNC. Isso significa que um indivíduo tolerante ao etanol pode apresentar uma diminuição da resposta a esses fármacos. Parece ser aceito, entre os anestesiologistas, que o paciente tolerante ao etanol requer doses maiores de anestésicos gerais. Entretanto, isso só ocorre quando o paciente está sóbrio (abstinente), pois na presença de álcool o efeito final é exatamente oposto, havendo risco de toxicidade letal. A tolerância farmacocinética, é responsável pelo metabolismo do próprio álcool em indivíduo tolerante(30-40 mg/dL/h), quando comparada ao indivíduo não-tolerante (15-20 mg/dL/h).
Síndrome de abstinência. Os sinais e sintomas da síndrome de abstinência do etanol aparecem algumas horas após a última dose e têm duração de aproximadamente 72 horas. Náusea, sudorese, cólica intestinal, fraqueza, tremor, hiper-reflexia, distorção da percepção (alucinações transitórias), hipertensão, distúrbios do sono, ansiedade são os sinais e sintomas iniciais. Após 12 a 48 horas, podem ocorrer crises convulsivas. A remissão ocorre espontaneamente em 5 a 7 dias.
A severidade da síndrome de abstinência depende da quantidade ingerida por dia e do tempo de exposição ao etanol. O desejo intenso pelo etanol é outra característica da síndrome de abstinência. Muitos alcoolistas necessitam ingerir uma dose de etanol pela manhã ou mesmo a noite para restaurar a concentração sanguínea do etanol, que diminuiu durante a noite, e assim evitar o desconforto da abstinência.
Delirium tremensPode ocorrer ainda a síndrome do delirium tremens; essa situação é mais frequente quando o dependente apresenta outros problemas como, p. ex., alterações eletrolíticas, desnutrição ou infecções. A síndrome do delirium tremens se caracteriza por agitação severa, confusão mental, alucinações visuais, febre, sudorese generalizada, naúsea, diarreia, midríase. A ocorrência é de 5% em alcoolistas e o tratamento é realizado com benzodiazepínicos (diazepam) por via oral.
Cabe assinalar que o delirium tremens é uma urgência médica e a internação se faz necessária em todos os casos, pois o risco de morte é de 5 a 15 % para os pacientes não tratados.
Tratamento (desintoxicação). O tratamento do alcoolismo crônico difere do empregado na dependência a hipnóticos barbitúricos, embora ambas as substâncias causem efeitos depressores centrais semelhantes. Em razão da impossibilidade de se diagnosticar a intensidade da dependência física alcoólica, utilizam-se, em todos os casos, fármacos de substituição que apresentam tolerância e dependência cruzada com o álcool etílico. A terapêutica consiste na retirada do álcool e substituição por doses ajustadas e controladas de benzodiazepínicos de meia-vida curta, como oxazepam, para evitar o delirium tremens. O álcool, quando usado crônica e abusivamente, causa deficiência hidroeletrolítica, hipovitaminose e estados de desnutrição, daí a necessidade de se complementar o tratamento com dietas ricas em glicídios e proteínas, vitaminas de complexo B, vitamina C e reidratação associadas às correções eletrolíticas.

Intoxicação Aguda. O álcool pode ser tóxico agudamente ou quando doses altas (overdose) são ingeridas e caracteriza-se por vários sinais, como excitação, loquacidade, comportamento “inadequado”, perturbações da fala (pastosa), amnésia posterior (blackouts), incordenação de movimentos, e, em casos mais graves, por anestesia e coma
Existe uma correlação entre as concentrações plasmáticas de etanol e os efeitos clínicos observados. Contudo, esses efeitos podem ser bem diferentes em indivíduos com igual alcoolemia. A concentração de etanol pode ser obtida diretamente pela determinação no sangue ou, mais frequentemente, pode ser estimada pela concentração no ar expirado (equivale a 0,05 % da presente no sangue), técnica utilizada nos bafômetros. No Brasil, dirigir com alcoolemia superior a 0,2 g/L constitui infração pelo Código Brasileiro de Trânsito (Lei Nº 11.705, 2008).
O tratamento da intoxicação alcoólica aguda é baseado em medidas emergenciais a serem tomadas sobre a gravidade da depressão do SNC e respiratória. Os pacientes comatosos com evidente depressão respiratória devem ser intubados e mantidos em ventilação assistida. A remoção de etanol do organismo é feita com lavagem gástrica, evitando-se aspiração pulmonar do fluxo de retorno. A hemodiálise é usada para remover o álcool do sangue em casos graves.
Em conclusão, O uso abusivo e o alcoolismo estão associados a diversas condições médicas. A OMS admitiu o alcoolismo como problema médico em 1951, e na década de 60 foi reconhecido como transtorno mental pela Associação Psiquiátrica Americana.

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