11 maio 2012

O álcool não faz falta !

A falta que o álcool não fazSair para tomar uma cervejinha com os amigos talvez seja um dos programa mais comuns entre jovens e adultos brasileiros. Mas se a cerveja for substituída por um suco? Festejar sem bebida alcoólica não só é possível como é defendida por abstêmios muito bem resolvidos com a decisão
fonte : Correio Brasiliense

 (Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
A noite de 13 de janeiro era uma típica sexta-feira naquele bar no começo da Asa Sul. Passava pouco das 20h e, em quase todas as mesas ocupadas, a visão era a mesma: gente conversando e rindo alto, acompanhadas da garrafa de um marrom avermelhado, guardada em sua temperatura por um isopor. A cerveja era o item indispensável. O quase aqui só era quebrado pela mesa onde sentavam Flávia Santos, designer de 24 anos, e o namorado, Fábio Pereira, bancário de 27. Os dois não consomem bebidas alcoólicas e, em um ambiente criado para celebrá-las, eles pareciam destoar. Mas, nem por isso, deixavam de se divertir. “As pessoas se surpreendem quando sabem que não bebo, porque isso é a atitude que a sociedade dita para nós. Há ideais de comportamento estabelecidos e beber é um deles. Então, você é cobrado para fazer isso”, desabafa Flávia.
Em uma realidade em que o incentivo ao primeiro gole é constantemente renovado — afogar mágoas e comemorar vitórias ganham o mesmo status quando envolvem bebidas —, decidir por não consumir álcool sempre causa estranheza, ao ponto de o estigma do excesso ser mais tolerado que o da abstinência. Afinal, sempre parece compreensível exagerar um pouco. “A abstinência é mal vista pelos jovens em nosso contexto porque o álcool ainda está fortemente associado a valores de virilidade, sociabilidade, liberdade e de prazer, numa sociedade profundamente focada em valores hedonistas”, afirma Eliana Mendonça Vilar, doutora em psicologia clínica pela Universidade de Brasília (UnB) com a tese Filhos de Baco: adolescência e sofrimento psíquico associado ao alcoolismo paterno.
De acordo com a especialista, a cultura brasileira enxerga a abstinência como um comportamento fora do padrão e, dessa forma, difícil de ser tolerado. A pressão social finda sendo um dos principais motivos que levam ao primeiro gole.
As pesquisadoras Eroy Aparecida da Silva e Denise de Micheli, do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lançam, em 1º de março, o livro Adolescência, uso e abuso de drogas: uma visão integrativa. Nele, o álcool, por ser de venda livre e praticamente não controlada, surge como uma importante porta de entrada para a experimentação de outras substâncias entorpecentes.
“Em nossas observações, vimos que a precocidade no consumo de bebidas alcoólicas é cada vez maior. Até a década passada, a primeira vez que um adolescente bebia era, em média, aos 13 ou 14 anos. Hoje, isso ocorre aos nove anos de idade”, afirma Denise. Ela explica que a cultura jovem celebra o excesso de bebida. Por ser uma substância bem aceita diante da sua licitude, ela é tida como obrigatória para qualquer comemoração, tornando-se um problema que se torna o único motor do divertimento. “Nós sempre incentivamos os pais a levantar a autoestima dos filhos. Caso eles sintam pressão para beber, que sempre estejam bem consigo mesmo para entender que eles não serão menos que os outros por negar”, completa.

Certo ou errado?
 (Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Beber ou não são escolhas que não devem ser rotuladas como certa ou errada. Como qualquer decisão na vida, essa envolve vantagens e desvantagens que devem ser analisadas de forma individual. O que muitos especialistas discutem é que, sendo a bebida liberada e estimulada, falta a muita gente o discernimento necessário para entender as razões que as levaram ao consumo. “O importante é conhecer seus limites, sabendo fazer opções mais saudáveis. Se a decisão de não beber causa mal estar por medo do preconceito, denota uma imaturidade, já que uma pessoa madura não vai se importar com a opinião alheia, nem do grupo”, afirma a psicóloga Solange Guerra Paiva, especialista na área de dependência química.
De acordo com a especialista, o correto é o que é decidido a partir dos próprios desejos, sem que as pressões de fora se tornem mais importantes que a vontade do indivíduo. “Quando você se predispõe a usar uma química está disposto a pagar uma pena orgânica, psicológica, social ou financeira. Você não sabe se conseguirá usar aquilo de forma social, apenas. Qual é o limite? Não se sabe sem usar. O que eu oriento aqui é o balanço: o que eu ganho com essa opção? O que eu perco com essa opção?”
Solange afirma que é comum é a dificuldade do adulto em discernir essas conseqüências, focando apenas no prazer. Como, diz ela, há muitos adultos que ainda são psicologicamente crianças ou adolescentes, eles jamais ponderam o mal ou o bem de beber. Por isso, a dificuldade em negar a bebida alcoólica. “O que a gente vê numa festa infantil? Bebida e pais oferecendo-a para os filhos. Elas crescem sem ver o quão perigoso pode ser essa substância caso ela não saiba usá-la.”
E os motivos para deixar a bebida devem ser respeitados, independentemente de onde tenham surgido. Flávia Santos, por exemplo, decidiu não beber motivada por um problema familiar. “Meu pai é alcoolista e eu vi, durante toda a infância, o que isso é capaz de fazer numa família.” Fábio Pereira, seu namorado, consumia em pouca quantidade e não viu dificuldade alguma em abandonar. “Ela nunca fez questão que ninguém parasse de beber, mas decidi acompanhá-la. Isso nunca foi algo do qual a nossa relação dependesse.”
Para a professora de espanhol Samyra Almeida, 28 anos, a decisão partiu de um desejo estético. Mas, como a maioria, ela sempre teve contanto com o álcool e sentiu o peso da decisão, menos por conta dos amigos e mais pelo prazer que tinha ao beber. Após começar um programa de exercícios na academia que não deu o resultado esperado, foi orientada pelo nutricionista a cancelar a cervejinha por um mês. “Eu parei em maio de 2011 e melhorei na academia. Acabei continuando. Mas as três primeiras semanas de abstinência foram muito difíceis”, lembra.
Para conseguir, ela decidiu parar de sair à noite. Por ter se tornado também concurseira, sentiu maior facilidade em negar as baladas. “No começo, as amigas insistiam muito, até que desistiram de chamar. Hoje, eu relaxei, tenho meu objetivo.” Ela, que conhece os dois lados, reclama que fica muito difícil entrar no clima de um grupo que já bebeu muito. Assim, afirma que se tornou menos paciente, principalmente com aqueles papos de homens embriagados na balada. “A vantagem é que escolho melhor as festas que vou, mesmo que tenha perdido o pique de ficar até de manhã. Mas a experiência está sendo boa”, garante.

A influência do grupo 
 (Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
A estudante Luiza Moreira Bezerra conhece bem a coação para beber. Aos 17 anos, ela nunca experimentou bebidas alcoólicas e, apesar de não sentir que isso tenha diminuído seu divertimento, sempre encontra os que querem fazê-la beber. “Todos os meus amigos bebem, e a proibição da venda para menores não afeta quase em nada. Não quero beber. Mas há aqueles que passa dos limites todas as vezes.”
A jovem diz que se sente cansada de ter sempre que ficar justificando sua decisão, mas que entende a surpresa dos outros quando lembra da quantidade de adolescentes que consomem o álcool. “Não acho que seja um erro beber, nem que eu seja melhor por não fazer isso. Só detesto quem fica muito bêbado perto de mim. Quero que meus amigos possam beber quando estão comigo, porque não quero ficar de fora. Somente acho que ninguém precisa exagerar para se sentir feliz.”
Porém, esse exagero é o que mais ocorre nessa faixa etária. O I Levantamento nacional sobre uso de álcool, tabaco e outras drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras mostrou que 18% dos entrevistados já dirigiram sob efeito de álcool e 27% pegaram carona com motorista alcoolizado. Outra descoberta preocupante é que 79% dos menores de 18 anos que foram pesquisados já haviam tomado alguma bebida alcoólica.
A pesquisa, que falou com quase 18 mil estudantes de 100 instituições nas cinco regiões do país, foi feita por meio de uma parceira entre a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e do Programa do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Os excessos de universitários causaram discussões também em Brasília. A UnB chegou a proibir, no ano passado, confraternizações nas áreas comuns, depois de denúncias que também envolviam o consumo exagerado de bebida dentro do câmpus. “A alta prevalência de comportamentos de abuso do álcool em nossa sociedade pode ser explicada por fatores sociais, econômicos e psicológicos, tais como: fácil acesso, baixo custo da bebida, pressão social para beber, falta de restrição das propagandas de cerveja, rituais focados exclusivamente no álcool, falta de oportunidades diversificadas de lazer, impunidade, além da dependência psicológica do grupo e do álcool”, afirma Eliana Mendonça.
Dizer não pode se tornar repetitivo, mas nunca deve ser encarado como algo que mutile a própria vontade. Aos 53 anos, a estatística Maria Angélica Dias Moreira, mãe de Luiza, também nunca bebeu. “Sou de uma família em que cerveja e vinho sempre fizeram parte das comemorações. Mas escolhi não beber, simplesmente porque não gosto”, explica. Ela lembra com saudade de quando era universitária no Rio de Janeiro e, entre uma gafieira e uma praia, dançava e se divertia sem sentir falta da cerveja.
Maria Angélica conta que, naquela época, eram comuns as brincadeiras. “Sempre me ofereciam leite quando estávamos no bar.” Ela era a motorista da vez muito antes de a expressão ganhar a conotação de hoje. Garante que sua decisão não envolveu nenhum preceito moral, já que ela tem diversos amigos que consomem álcool em quantidade moderada. Só que muitos a olham como se fosse, nas suas palavras, uma extraterrestre.
“Não conheço nenhuma pessoa que não beba como eu, mas não acho que o álcool deva ser proibido. Falta a quem bebe maior consciência do que a substância faz com ela. Tudo tem de ter limite.” Maria Angélica nunca estimulou a filha a nada, sempre deixando a cargo dela escolher. Ela mesma diz que suas melhores amigas bebem e isso não traz qualquer diferença para a relação. “Recentemente, promovi um fim de semana de queijos e vinhos com elas e eu fiquei apenas no queijo e no suco. Nos divertimos muito”, completa.

A bebida na história
A temperança sempre foi tida como o comportamento ideal diante do álcool. No livro Bebida, abstinência e temperança — Na história antiga e moderna (Editora Senac), o historiador Henrique Carneiro escreve sobre as noções de embriaguez. Na Grécia clássica, Baco era o símbolo do poder embriagante do vinho. Carneiro diz, no livro, que sua múltipla representação na mitologia grega  “tem sempre em comum o furor, o frenesi, a dança, a alucinação e atos de loucura homicida”.
Contudo, os efeitos do álcool e seu consumo serviam como medida de caráter e de capacidade de autocontrole para os cidadãos gregos. Embriagar-se, explica Carneiro, era uma atitude social legítima, mas que servia de “instrumento de aferição da prudência e temperança de cada indivíduo”. Não beber era uma decisão que causava preconceitos porque o abstêmio era tido como alguém sem capacidade de se controlar. “E constituía também a fronteira cultural entre civilização e barbárie”, completa o autor.
Para os judeus, o vinho é considerado uma substância pura, quando produzido pelas regras rabínicas, tanto que era usado como símbolo do bem, do Messias e da própria Israel. No Antigo Testamento, Carneiro cita Deuteronômio 14:26, em que Deus, falando com Moisés sobre o dízimo, diz: “Trocarás o dinheiro por tudo que desejares: vacas, ovelhas, vinho, bebida embriagante, tudo enfim que possa te apetecer. Comerás lá, diante de teu Deus, e te alegrarás, tu e tua família”.
E o sangue de Cristo, ao se incorporar ao vinho, torna-o a substância mais sagrada do Cristianismo, sendo a vinha, a planta mais citada no Novo Testamento e com a qual Cristo se comparou. O excesso, claro, continua sendo, para todas as religiões mencionadas, um pecado, apontando uma distinção entre beber e se embriagar.

A fé que decide a escolha
 (Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Há também a escolha baseada na fé. Mesmo que a Bíblia tenha em seu texto diversas passagens mostrando que o vinho é uma substância sagrada, as religiões baseadas no cristianismo — maioria no Brasil — têm opiniões diferentes sobre o consumo. Todas, porém, concordam em um ponto: a embriaguez é pecado. O professor Nilton Silva, 63 anos, é, desde os 20, da Igreja Presbiteriana, denominação dada às igrejas cristãs protestantes que aderem ao calvinismo. Antes de se converter, ele garante ter tido uma adolescência comum.
“Na minha época, quem não bebia e não fumava era considerado antissocial. Sendo assim, eu me juntava ao grupo. Só depois que decidi me tornar evangélico é que pude entender que isso não era bom para mim”, explica. Nilton diz que sua igreja não proíbe o álcool, mas sugere que os fiéis não façam uso dele. Tanto que, no momento da eucaristia, não é usado o vinho, mas o suco de uva. O professor garante que ter experimentado antes de optar pelo evangelismo fez muita diferença no seu entendimento da bebida alcoólica.
Nilton considera que aqueles jovens educados por uma família evangélica, na qual não há membros que bebam ou fumem, demonstram curiosidade por essas substâncias quando crescem. Até mesmo porque eles convivem com outros adolescentes. “Esse período, antes de me tornar evangélico, me deu maior capacidade para fazer uma escolha madura. Para as pessoas que têm um compromisso com Deus, não beber é fácil. Mas para os que não têm esse compromisso é muito difícil”, acredita, deixando claro que não condena os que assim o fazem.
“Claro que eu tenho amigos fora da igreja e eles bebem. Eu seria hipócrita se não os tivesse. Não acho que beber uma cerveja seja pecado. Apenas ela não faz bem ao corpo.” Nilton conta que, ao chegar em um restaurante, há sempre aquela pessoa que oferece uma bebida, mesmo que a negativa poucas vezes leve a maiores questionamentos. Isso porque negar um copo de cerveja só causa surpresa entre os amigos.

Uma perigosa droga lícita
O maître da Cervejaria Devassa Jocimar Agostini garante que não há diferenças no atendimento entre quem bebe ou não. Porém, a turma sempre faz brincadeiras com o colega que não toma bebidas alcoólicas, ainda que seja somente por uma noite. “Há os que ficam brincando, mas tem muita gente que vem aqui para não beber. Comem, aproveitam a vista, até porque as variedades do cardápio são muitas para quem não quer cerveja.” Mas ele garante que os que não bebem e têm de acompanhar o resto da turma sempre acabam a noite em um cantinho mais afastado, em uma conversa menos acalorada.
“Nem por isso menos divertida”, completa. Diferentemente do que muitos pensam, Jocimar assegura que os que vão até a cervejaria sem a intenção de beber, muitas vezes, gastam mais que os filhos de Baco. “Por isso que eles são muito bem vindos, ainda mais porque são bem mais tranquilos de lidar.” O maître garante que a lei seca, como ficou conhecida a Lei 11.705, que alterou o Código de Trânsito Brasileiro, mudou sim a consciência do motorista em relação a dirigir depois de beber. “Nosso público é de maior poder aquisitivo e parece que está sempre preocupado com o dia seguinte. Não quer cometer excessos nem levar multas, então reduz o consumo ou tem um amigo para conduzir.”
A psicóloga Solange Guerra Paiva diz se preocupar com a interpretação da lei. Em grande parte da propaganda institucional, a ideia pregada é a de que se beber, não dirija. “Isso minimiza os efeitos do alcoolismo. Se for de táxi ou se um colega é eleito o da vez, você pode beber à vontade, relegando as consequências provocadas pelo excesso de álcool.”
Considerada uma droga lícita, ela está sempre entre as consideradas menos danosa. Porém, uma pesquisa publicada em novembro do ano passado no jornal médico The Lancet afirmou que o álcool é a droga social mais perigosa para quem usa e para os outros à volta, superando a heroína, que fica em segundo, e o crack, em terceiro. “As pessoas não estão demonstrando a audácia de não permitir a bebida na própria vida. Só é possível dizer não quando se está bem centrado e dando mais importância à própria opinião e não à dos outros”, garante Solange.
A abstinência está associada a uma escolha. Mas, para a doutora em psicologia Eliana Mendonça Vilar, é preciso avaliar a qualidade de vida do indivíduo abstinente. “Se ele tem amigos, uma vida profissional, social e cultural satisfatória, e não usa a abstinência como uma forma de trunfo moralista, não existe problemas.” A abstinência só não deve assumir uma conotação ou significado geral, continua a especialista. Cada pessoa tem sua história e percurso existencial que vai justificar a decisão.
“A dependência alcoólica representa a perda de liberdade de optar entre beber ou não. Beber exageradamente ou não beber podem ser consideradas duas faces da mesma moeda. Indivíduos saudáveis e não dependentes conseguem saborear o equilíbrio e usufruir dos benefícios inerentes a rituais alcóolicos agregadores”, finaliza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário