19 julho 2012

Alcoolismo e Medicina


ALCOOLISMO E MEDICINA

A medicina investiga as causas do alcoolismo. Alguns pesquisadores levantam a hipótese de faltar determinada enzima na célula daquelas pessoas com tendência a essa compulsão. Seja como for, tudo é muito inconcluso e está muito distante o dia da descoberta de uma substância que “cure” o alcoolismo. Até lá muito alcoólatra vai morrer de cirrose, acidente de trabalho ou de trânsito. E, se não destruir sua vida física – o que é raro deixar de acontecer – , vai destruir sua vida amorosa, familiar e profissional. Internação, tranquilizante, vitamina, tapinha nas costas ou sermão não curam alcoolismo.
Existem aqueles supostos tratamentos, na realidade, precursores dos DOI-CODI: enfia-se uma pílula debaixo da pele, e ela libera aos poucos uma substância que incompatibiliza o organismo com a bebida. Se a pessoa beber, ficará cheia de urticária e vomitando sem parar.
Esse tipo de tratamento não só é brutal e quase punitivo – olha o preconceito contra o alcoolismo se infiltrando! - como pouco eficaz. É quase como querer tratar alcoolismo com tortura.
E depois de tudo isso, quando acaba a pílula, se o alcoólatra tomar um golezinho da bebida mais fraquinha que tiver, a compulsão etílica retorna. Com força redobrada.

ALCOOLISMO E PSICANÁLISE

A psicanálise – é claro – estuda o alcoolismo há muitos anos. Estudá-lo, contudo, é uma coisa; curá-lo é outra. Minha experiência com pacientes alcoólatras em psicanálise e a leitura e observação do trabalho de outros psicanalistas me levaram à seguinte conclusão: com psicanálise o alcoólatra vai se entender muito melhor, vai expandir várias de suas potencialidades, vai até entender bastante a sua compulsão, mas... vai continuar bebendo. E muito. Vai se tornar um bêbado psicanalisado, porém bêbado.
Não se veja nisso nenhuma restrição ao valor da psicanálise. Simplesmente, como qualquer prática humana, ela não é onipotente, nem miraculosa. Embora sirva para muitas coisas, e serve, não serve para todas as coisas. Por exemplo, não serve para “amansar” a fúria da compulsão alcoólica e fazer um alcoólatra beber moderadamente.
Freud sempre nos advertiu para a resistência de certos sintomas à transformação. Por mais que o psicanalista localize e compreenda, por mais que trabalhe sobre ele, ele não se transforma. Parece até feito de uma substância dura, uma rocha, um granito: são regiões da mente que ficaram cristalizadas, produzindo efeitos por toda a vida.
Muitas compulsões são feitas desse material resistente. A psicanálise entende como se constituíram e o que pretendem, entende sua motivação e sua lógica de funcionamento, possui excelentes teorias para explicá-las, mas não consegue transformá-las em desejos moderados e passíveis de controle espontâneo pela vontade.
Daí, por exemplo, a dificuldade de se tratar psicanaliticamente a obesidade (compulsão por comer), a toxicomanias (compulsão às drogas) e o tabagismo (compulsão por cigarro). Nunca vi alguém que fuma desbragadamente fazer análise e passar a fuma moderadamente – um cigarrinho de vez em quando, em datas especiais...
Aliás, há aqui uma coisa intrigante. Jamais um psicanalista tenta tratar psicanaliticamente a compulsão ao cigarro. Não estou dizendo que não trabalhe vários pontos dela. Porém, na hora da decisão, não há outra saída senão: “Evite a primeira tragada”. Quem não cortar de vez o cigarro não vai conseguir parar de fumar, nem ir diminuindo “naturalmente” sua vontade de fumar. Pelo contrário: cigarro puxa cigarro e quanto mais se fuma mais se tem vontade de fumar. Aquele que já parou de fumar sabe que, se um belo dia der uma tragadinha inocente, voltará a ser possuído por aquela irresistível fissura. Todo psicanalista parte desse princípio provado e comprovado pela evidência dos fatos. Entretanto, quando chega a vez do alcoolismo, muitos psicanalistas adotam uma posição bem mais otimista, admitindo ser possível, graças à psicanálise, deixar de ser alcoólatra e continuar bebendo, só que moderadamente. Com o cigarro, sito não é possível e, com o álcool, é!? Essa nem Freud explica...
Por isso, para os Alcoólicos Anônimos, ou o alcoólatra pára de beber ou beberá desbragadamente até morrer. Se é assim com a relação entre o fumante e o cigarro, com muito mais razão há de ser assim com a relação muito mais explosiva que se trava entre o alcoólatra e o álcool.

Eduardo Mascarenhas.


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