16 julho 2012

Cirrose : Doença Exclusiva de Bêbados ?


Doença exclusiva de bêbados?
Definitivamente não. Óbvio que a exposição exagerada e a longo prazo ao álcool potencializa o aparecimento de cirrose hepática, mas isso varia muito de acordo com o tempo, a quantidade de álcool ingerida e a predisposição genética. Inclusive, a maioria das pessoas com cirrose hoje em dia não são alcoolistas, e sim portadores de algum tipo de hepatite (mais comumente a C). Outras causas menos comuns também podem levar à cirrose hepática, como a hepatite B, algumas medicações tóxicas ao fígado e portadores de inflamações crônicas no órgão. O importante é salientar que não são todos os alcoolistas que desenvolverão a patologia e que não há uma maneira específica de prever quais as pessoas com doença de fígado que terão cirrose.
Sintomas
A doença se desenvolve lentamente e há casos em que os primeiros sintomas aparecem após muitos anos. Isso se deve ao fato de o fígado ser um órgão funcional, ou seja, só quando ele estiver extremamente comprometido que os sintomas vêm à tona.
Resolvi listar os sintomas de acordo com duas alterações: alterações hormonais e alterações sanguíneas no fígado.
ALTERAÇÕES HORMONAIS:
  • Perda de interesse sexual
  • Impotência
  • Interrupção menstrual
  • Ginecomastia
  • Esterilidade
ALTERAÇÕES SANGUÍNEAS NO FÍGADO:
  • Hemorragias no esôfago e estômago (podendo evoluir para hemorragias graves)
  • Aumento do baço
  • Barriga d’água (ascite) em casos muito graves
  • Pele e olhos amarelos (icterícia)
                                                                                        Ascite (barriga d'água)
Outros sintomas como desnutrição,  fraqueza, tremores, cãimbras, sonolência, e confusão mental também são muito comuns nesses indivíduos.
Como fazer o diagnóstico?
Daí o leitor pergunta: se é tão difícil perceber os sintomas, como vou saber diagnosticar a doença na sua fase inicial? Simples, procure ajuda médica. Pode até parecer meio óbvio, mas se o paciente apresenta uma predisposição à cirrose hepática (alcoolistas e portadores de hepatites) o auxílio médico se torna indispensável.
Em muitos casos, quando o paciente chega ao consultório seu quadro clínico já mostra indícios da doença, e uma avaliação complementar do tipo exame sanguíneo e endoscopia digestiva já são suficientes para acusar a cirrose hepática. Contudo, o diagnóstico definitivo de cirrose é feito por biópsia hepática (obtida por punção do fígado com agulha especial) e análise microscópica do material obtido nesse exame.
                                                                 Punção no fígado com agulha especial
Atente-se aos fatores de risco
Conforme dito, a cirrose não é uma doença exclusiva de bêbados, então é bom não dar mole né, amigão. A patologia em si, não é contagiosa, mas os fatores de risco que desencadearam a mesma podem ser. Portanto, fique esperto e não vacile.
FATORES DE RISCO:
  • Histórico familiar (a chamada predisposição genética)
  • Etilismo (geralmente>50g/dia)
  • Hiperlipidemia, diabetes e obesidade
  • Transfusão sanguínea e exposição parenteral (forma muito comum de se adquirir hepatites B e C)
  • Homossexualismo masculino (fator de risco para hepatites B)
  • Medicações
  • Histórico de hepatites
Prevenção
Aproveitando-se dos fatores de risco, a maneira mais conclusiva de se evitar a cirrose de origem viral é a vacinação contra a hepatite B. Outros métodos, como rigorosos critérios de controle do sangue usado em transfusões, uso de preservativos nas relações sexuais e uso individualizado de seringas pelos usuários de drogas injetáveis, são medidas que minimizam a cirrose causada pelas hepatites B e C.
No caso do álcool, deve-se evitar o seu uso excessivo. Apesar de apenas uma minoria das pessoas que bebem demais terem cirrose, o risco aumenta proporcionalmente à quantidade e ao tempo de consumo.  
“De cirrose não morro…bebo, bebo e não fico bêbado…”
Com certeza você já ouviu alguém dizer isso. Realmente, existem pessoas mais resistentes aos efeitos do álcool, mas uma coisa é certa: em se tratando de cirrose, isso não quer dizer absolutamente NADA!
Os chamados “resistentes” ao álcool (ou seja, aqueles que bebem e não se embreagam facilmente) podem até ter o organismo pronto para grandes quantidades de bebida, mas talvez seu fígado não seja assim tão preparado e ele venha a desenvolver a doença sem nunca ter tomado um porre na vida (triste, não!?).
Não é possível precisar que quantidade de álcool causará cirrose em determinada pessoa, entretanto, doses acima de 20g de álcool por dia, o equivalente a duas latas de cerveja ou duas taças de vinho, ou duas doses de destilado, são suficientes para, em certos homens, causar doença. Em mulheres, a metade desta dose, ou seja, 10 gramas de álcool por dia, já pode provocar cirrose.
Doença sem tratamento
Infelizmente a cirrose hepática em seu estado mais avançado não tem tratamento. Sendo assim, a única opção do paciente é um transplante de fígado. A cirrose é uma doença consequente de um fígado há tempos agredido, e que deve ser tratado antes de uma possível evolução da patologia. Alguns tratamentos estão sendo estudados para evitar a progressão da doença, mas os resultados científicos são conflitantes, portanto, não há comprovação suficiente que permitam sua prática.
Um dado alarmante, é o crescente número de casos de cirrose secundária por pacientes que buscam terapias alternativas, os chamados “remédios naturais”. Algumas plantas, como o Noni (Morinda citrifolia), a Senna (Senna alexandrina Nill) e a Cascara Sagrada (Rhamnus purshiana D.C) possuem antraquinonas que podem causar hepatites tóxicas. Sendo assim, cuidado com a medicina natural. Uma erva pode tanto curar quanto matar, dependendo de sua administração.
                                                                            Cascara Sagrada
O triste martírio das filas de transplante
Angústia, sofrimento, dor…esses são apenas alguns dos sentimentos que um portador de cirrose hepática e seus familiares sentem ao esperarem o tão necessitado órgão nas filas de transplante. Cerca de 2000 pessoas aguardam por um transplante de fígado e só no primeiro semestre de 2011 aproximadamente 700 cirurgias foram realizadas.
Conseguir um fígado é um processo lento, onde a posição na qual o nome do paciente se encontrará depende diretamente do grau de evolução da sua doença, ou seja, quanto mais enfermo mais rápido o transplante. Em raros casos há “furos” na fila, salvo as exceções em que um indivíduo de risco potencial recebe um órgão antes que outro, cujo avanço da doença é menor.




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