06 agosto 2012

Drama de Alcoólatras em Recuperação


Drama de alcoolatras em recuperação.


Por Mariana Ferrari e Thaís Lima

“A história do bêbado é a mesma, só mudam os personagens”. Essa confissão feita por Dijalma de Oliveira Dourado para introduzir a sua história é usada por todos os que passaram e passam pelas mesmas dificuldades que ele. Depois de 32 anos dedicados a vencer o vicio de álcool, hoje com 75, já não tem mais vergonha de mostrar as suas cicatrizes desde que impeça outras pessoas a passarem pela mesma situação.
              Morador da cidade de Irecê, na Bahia, aos 14 anos não sabia o que era vício.  “Eu nunca tinha visto nem perna de mulher, nem do joelho para baixo. Fui ao circo, vi duas mulheres no trapézio de biquíni e no mesmo dia me convidaram para beber. Eu não sabia o que era bebida”, relembra.  Estavam em três rapazes e misturaram duas meias garrafas de Cizano e cachaça. Depois dessa dose, as próximas foram aumentando cada vez mais. Não que isso ainda atrapalhasse o seu cotidiano, pois bebia controladamente. Já teve vários trabalhos: vaqueiro, vendedor, caminhoneiro. Nenhum com carteira assinada. Sempre foi autônomo.  Ainda bebendo socialmente conheceu sua esposa Marina Rosa de Lima Dourado com quem se casou aos 25 anos. Da união nasceram as “quatro Marias”: de Lourdes, da Glória, Lisaura e Bernardete.  Tiveram muitas posses, como terrenos e gado.
O casal também era dono de uma venda na cidade, que prosperou, só que ela foi afetada pelas crises de Dijalma. Ele não tinha mais vontade de abri-la e não deixava que Marina e suas filhas a abrissem também. Na casa da família tinha todo tipo de bebida, que Dijalma as misturava em um único copo. “Nunca cheguei a roubar fora, mas dentro de casa se eu achasse 10 centavos peagava para comprar bebida, fosse de quem fosse”, confessa.  Até conseguiu ficar um ano sem beber, porém teve recaída e o alcoolismo ficou mais acentuado.  À noite, enquanto Dijalma não chegasse em casa, Marina ficava no portão esperando  para que o marido não dormisse na rua.
            A situação ficou insustentável.  Dijalma nunca foi de brigar, mas machucava seus próximos com as palavras. A única vez que houve alguma ameaçava foi o ultimato para Marina. Embriagado, Dijalma  apontou um revólver  em sua cabeça se ela não lavasse a roupa.  Como a maioria da família dela vivia em São Caetano do Sul, Marina decidiu se mudar com as filhas e perguntou ao marido se preferia ir junto, já que estava irredutível. “Eu ia mesmo se ele fosse ou não”, esclareceu Marina. A família não se separou. Dijalma aceitou ir.
Marina conseguiu um emprego na fábrica de sapatos, onde os irmãos dela também trabalhavam, no primeiro dia que chegou. Dijalma fazia carreto.  Mas o que parecia melhorar, estava piorando cada vez mais. Ele não largava a bebida. Marina apelou para todas as religiões possíveis para fazer o marido parar. Ainda sim agüentava tudo calada e paciente. “Achava feio as mulheres que brigavam com os seus maridos por causa disso [a bebida]. Ficava calada por respeito as minhas filhas. Foi o melhor”. 
            Dijalma sentia por sua família, mas o vício era incontrolável. “Só não bebia quando estava dormindo”. Já não era só a família que estava ciente do problema. Todos de fora já o reconheciam como “o bêbado”. “A primeira coisa que o bêbado perde é o nome, o caráter e aí a situação fica delicada”, explica Dijalma. Ele reconheceu isso quando sua filha mais nova, Maria Bernardete Lima Dourado, de 37 anos, ainda criança na época, pediu um “quebra-queixo” na rua ao pai. Como Dijalma não tinha dinheiro, ofereceu sua identidade como forma de garantia ao vendedor ambulante. Este recusou o acordo, dizendo que “de bêbado nem documento prestava”.
            Na vida do alcoólatra, não só o viciado enfrenta as consequências do álcool. A família sente também as dores. “Eu sofria por ele”, diz tristemente Marina. Em tese defendida pela assistente social Maria da Glória Lima Dourado, 47 anos, muitas vezes a mulher assume o papel de chefe da família, encobrindo o beber excessivo do marido. Os filhos assumem diferentes papeis. Se adolescentes, podem se tornar adultos antes do tempo. Foi o caso da filha mais velha, Maria de Lourdes Lima Dourado, 49 anos. Com 16 anos, ela ia em busca do pai nos bares, pedindo a sua volta para casa. Em pedidos de ajuda do pai, acabava bebendo com ele, mas não desenvolveu nenhum vício.  “Ele é um grande homem e tem boa índole”, defende Lourdes. ”Se não fosse por isso, não tinha conseguido se tratar”, especula. Todas perderam a liberdade da infância por medo das atitudes do pai. Não saiam à rua com receio de que se Dijalma não as encontrasse em casa pudesse brigar a mãe. Marina percebeu também que Bernardete, ainda bebê, refletia as dificuldades da família em seu comportamento e saúde.
            Como última alternativa, Marina levou Dijalma a uma reunião da Associação AntiAlcóolica do Estado de São Paulo, no dia 05/12/1977. O núcleo de São Caetano tinha sido criado quase dois meses antes, em 31/10/1977 por “um médico e dois bêbados”, como declarou Dijalma. A primeira visita foi tumultuada. Apareceu bêbado e ao ouvir um dos depoimentos se revoltou. “Parecia que ele estava contando a minha história”, relata. Após xingar o companheiro de “preto, cego, mentiroso e safado”, Marina o convenceu a ficar mais um tempo no local e no final do encontro, fez o seu voto.  Como uma espécie de compromisso com si mesmo, o dependente faz uma promessa falando as seguintes palavras:  “Ao ingressar na Associação Antialcoolica do Estado de São paulo prometo, com a ajuda de Deus, fazer todos os esforços para me abster de toda e qualquer bebida alcoólica, reconhecendo ser ela a responsável pela ruína e miséria do meu ser, do meu lar e de minha pátria. Assim eu prometo.”
            As reuniões são feitas sempre do mesmo modo. Em um auditório com capacidade para 200 pessoas, as paredes são decoradas por frases de efeito como “Mais um dia sem beber” ou “Aqui morre um bêbado e nasce um homem”. Na frente de um painel decorado pela “chorona”, uma cabeça de mulher chorando em um cálice de vinho com os dizeres “Em cada copo de álcool, há lágrimas de esposas, mães e filhos”, fica a mesa da assembléia. Em cima dela, uma placa chama a atenção com a citação “Evite a primeira dose”. No inicio uma sineta é tocada para ceder um minuto de silêncio para todas as pessoas que são afetadas pelo álcool.  Em seguida, começam os depoimentos dos alcoólatras em recuperação. Quinze dias após a primeira visita, a pessoa é convidada a falar sobre seus problemas, nunca obrigada. Cada convidado tem direito a falar por 10 minutos, visando conscientizar os outros através das suas experiências. Sempre repetem “Se você está vindo pela primeira vez, saiba que você é a pessoa mais importante dessa reunião”. Apesar de não ser uma associação com ligações religiosas é unanime agradecer a Deus por mais um dia sem beber – no próprio voto há uma citação sobre Deus. Todos sabem que o melhor remédio para o alcoolismo é a palavra de terceiros contando seus problemas. Muitos deles tem que ir todos os dias a reuniões para conseguir superar o desejo por álcool.  E querer parar por vontade própria. “Jurar pelos outros não adianta”, afirma Alexandre Gatti,  31 anos.
             Metalúrgico, Alexandre cuida de seus três filhos e se achava no direito de beber para descontrair nos fins de semana. A situação foi se agravando, como em todas as histórias. Em um de seus depoimentos, conta que sofreu um acidente grave de carro e por estar alcoolizado não lembra do que aconteceu. “Em churrasco a tarde, queria levar todo mundo embora, mas deixei o pessoal no caminho e parei em um bar. Acabei batendo a frente do carro e achei que no momento só tinha furado o pneu. No outro dia, descobri que tinha batido o carro e não lembrava. Depois disso jurei por meu pai que não ia mais beber, mas não cumpri o voto. De acordo com ele, “o bêbado tem três fases: macaco, quando acha que tudo é engraçado e faz graça com os outros, o do leão, onde acha que é forte e agride todo mundo e do porco, quando deixa de tomar banho e fica largado pelas ruas”. Só depois de decidir por si só que iria parar de beber, fez seu voto no dia 11 de maio de 2008. “Foi a melhor coisa que eu fiz na vida”. “Nosso casamento começou de novo”, comemora a esposa Edivânia Gatti, na condecoração de um ano do marido.
            Existe um incentivo para aqueles que enfrentam a recuperação. São as chamadas condecorações. Nos primeiros três meses de voto, a pessoa recebe um crachá verde escrito “Lembrança do meu terceiro mês de vitória”. Ela também ganha o direito de escolha por ser o dirigente, auxiliar, secretário ou mestre de cerimônia. Depois de seis meses, ele ganha o crachá azul e ao final de um ano ganha a primeira medalha, de bronze, que é distribuída a cada ano que o recuperado passa sem beber. Se por acaso a pessoa quebrar o voto, ela tem que voltar a associação e devolver as condecorações que juntou durante o voto. No dia da cerimônia de entrega, o homenageado chama um padrinho e escolhe o mestre de cerimônias. A reunião é carregada de emoção. Não é raro ver parentes e companheiros de luta chorando pelo recuperado. Ao fim do evento é repartido um bolo, normalmente feito pelos familiares com refrigerante, claro.
            Dirigente por 17 anos da Associação, Dijalma esclarece que há diferença entre esse grupo e os Alcoólicos Anônimos: ”Eles são guiados pela Bíblia do Recuperado, um livrinho azul, com doze passos a serem seguidos. Nós apenas pelo voto”. A cada depoimento na Associação a pessoa se identifica para o grupo. No AA, eles geralmente não precisam. Dijalma recebia mais de 3000 pessoas por semana no núcleo de São Caetano. Hoje, não mais. “Quando eu era dirigente de lá, fui divulgar a Associação nos programas daBandeirantes. Agora, eles não gostam de fazer isso. Eu acho que por isso que o AA cresceu tanto na divulgação” especula.
            Mesmo afastado do cargo, Dijalma está vinculado a Associação não só por causa de seu vício. Sua filha, Maria da Glória, assistente social, fez sua tese sobre a importância da família na recuperação do alcoólatra. No dia da colação de grau, combinou com os formando que a homenagem aos pais seria destinada a apenas um: Dijalma de Oliveira Dourado. Com 5000 pessoas na plateia, esse exemplo de superação foi aplaudido de pé por todos. “Quando terminou a colação, foi correndo para a Associação mostrar o trabalho da minha filha. Nesse momento percebi que, com a minha recuperação, eu passava ser novamente uma pessoa”, conclui.



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