11 outubro 2012

Única saída para Adriano salvar carreira e ( a vida ) assumir o alcoolismo

publicado em 03/10/2012 R7 - Eduardo Marini


Única saída de Adriano para salvar carreira (e vida): assumir e tratar problema de álcool como doença

Até o cidadão acima aconselhou Adriano a beber menos, bem menos, pouco, muito pouco, pouco mesmo, quase nada ou mesmo nada. A maneirar, enfim. A situação não é, convenhamos, exatamente confortável...
Em reportagem publicada no Globoesporte.com, o repórter Janir Júnior reproduz parte dos passos de Adriano Imperador no sábado (29), segundo dia consecutivo em que ele não foi treinar no Flamengo no final de semana passado.

Depois de ir a uma boate da Barra da Tijuca na madrugada anterior, o jogador passou a manhã de sábado na favela do Chapadão, comunidade ainda não pacificada do bairro de Costa Barros, zona norte do Rio de Janeiro, o segundo mais pobre e um dos mais violentos da Cidade Maravilhosa.

Como nas visitas à sua Vila Cruzeiro natal e a outras favelas, o Imperador tomou umas e outras, andou pelas vielas apertadas do morro e cruzou com traficantes.

Não consumiu drogas, mas um detalhe chamou a atenção de um dos líderes do tráfico local, Luis Fernando Nascimento Ferreira, o Nando Bacalhau.

Preso nesta segunda-feira (2), o chefe do tráfico do Chapadão, Luis Fernando Nascimento Ferreira, o Nando Bacalhau, contou a policiais detalhes de uma recente visita ao morro feita por Adriano, ainda de muletas, dias depois de sua segunda cirurgia no tendão de Aquiles, para um churrasco.

Bacalhau detalhou aos policiais:

- Ele é maluco. O Imperador é maluco. Não usa droga nenhuma, mas bebe demais. É impressionante. Já cansei de falar para ele, tento dar conselho, mas não adianta.

Neste mesmo sábado, Adriano teria mandado uma sequência de torpedos SMS ao diretor de futebol do Flamengo, Zinho, que fizesse de tudo para manter suas faltas longe dos jornalistas e torcedores.

Em um deles, chegou a pedir a Zinho de forma quase infantil :

- , irmão, segura essa para mim.

O “perdido” anterior de Adriano, dado no último dia 3 de setembro, teve roteiro e cenário muito semelhantes. Após desembarcar com time no aeroporto, no início da madrugada de uma segunda-feira, vindo de Porto Alegre, deu uma festinha para amigos e vizinhos em casa e, no embalo, seguiu para a favela em que foi criado, na Vila Cruzeiro, também na zona norte do Rio.

À tarde, quando deveria estar cuidando da forma e do tendão no Ninho do Urubu, foi visto, inclusive pelo comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local, participando de um churrasco, comprando e tomando breja com os amigos. Ao deixar a comunidade, envolveu-se, com seu carro, num acidente sem vítimas com uma moto.

Sem qualquer contato com os dirigentes, o atacante não apareceu no Ninho do Urubu. Na hora em que deveria estar treinando, o jogador foi visto na favela da Penha, onde acabou se envolvendo num choque entre sua BMW e uma moto. Mais uma vez, Zinho e Flamengo foram os últimos a saber.

Se Adriano não quer assumir ter uma doença, não vou discutir o seu direito.

Mas posso achar que ele está fazendo mal para si próprio e comentar o que representam pessoas com o seu perfil.

Cruzados ou vistos separadamente, todos os comportamentos, posturas, dificuldades e descrições feitas sobre Adriano nos últimos anos, a coroar com esta de Nando Bacalhau, formam um único perfil: o de um alcoolista, um doente do alcoolismo.

Alguém ligado ao que se convencionou chamar de alcoólatra, mas não como algo vergonhoso, e sim como um paciente, um doente que precisa – e muito – de tratamento – e de muito tratamento.

Vamos ser bem claros sobre o que é o alcoolismo e como ele deve ser combatido.

O alcoolismo é uma doença, produzida por uma série de influências sociais, psicológicas, físicas, genéticas e até alérgicas, que faz o sujeito perder o controle e o limite sobre a quantidade de birita que toma.

E também sentir uma falta tremenda, doente, caracterizada por tremedeira, perda de controle emocional, impulsos violentos e/ou depressivos e outras reações terríveis quando fica sem consumir álcool.

Por todas as causas descritas acima, o alcoólatra, ou alcoolista, parece ter um tubarão adormecido dentro de seu organismo, numa imagem tragicamente bela criada pelo falecido psicanalista Eduardo Mascarenhas.

Sempre que o alcoolista joga o primeiro gole para dentro, esse tubarão desperta e enlouquece a pessoa, tirando o seu controle e exigindo cada vez mais, e mais, e mais, e mais, e mais cerveja, cachaça, vinho, álcool puro, o que tiver à frente...

Quem não tem o conjunto de características de um alcoólatra toma o primeiro chopinho, o segundo, às vezes o terceiro e, felizmente para.

Mas os 6% a 13% dos seres humanos no Brasil e no mundo que possuem as características da doença chegam ao terceiro e... embalam até ficar bêbado ou cair.

Ela acaba com o corpo, a vida social e, por fim, a própria vida física do sujeito.

A ciência ainda não conseguiu mapear todas as causas do alcoolismo para descobrir a forma de curá-lo em todas as suas manifestações.

Por isso, ao menos até agora, ele é progressivo e incurável.

Progressivo, neste caso, significa o seguinte: ele vai aumentando a vida inteira. O camarada se contenta com duas cachaças esta semana, três na semana que vem, quatro na outra, até passar a virar um, dois litros por dia.

E incurável pelo seguinte: ainda não há remédio, vacina, massagem, alimento ou terapia que “tire” o alcoolismo do corpo de uma pessoa.

Por isso, a verdade mais clara é a seguinte: não existe ex-alcoólatra.

Existe alcoólatra que parou de beber – mas se voltar a colocar um gole de álcool no corpo, o tubarão acorda e aí já viu: ele volta ainda mais embalado, bebendo muito mais.

Os fantásticos escritores João Ubaldo Ribeiro e Ruy Castro (este último úm rubro-negro de quatro costados, por sinal), só para dar dois exemplos, jamais se dizem ex-alcoólatras ou alcoólatras curados.

Eles se definem como alcoolistas ou alcoólatras que não bebem mais.

Fazem isso porque, inteligências raras que são, sofreram com o problema e, no decorrer do processo de abandono, estudaram muito sobre a questão.

É besteira Zinho ou qualquer outro no Flamengo achar que Adriano não faltará mais ao trabalho.

O problema, na imagem tragicamente bela criada pelo psicanalista Eduardo Mascarenhas, é quando a talagada inicial da jornada "acorda e desespera o tubarão adormecido" que há dentro de cada alcoolista. Nenhum alcoólatra tem dificuldade para parar de beber. Toda a questão é, depois de um porre, não voltar a beber...
Vai faltar sim: mais uma, duas, cinco, dez, quinze vezes.

Tratado ou não – mesmo porque há recaídas nos tratamentos previstas pelos especialistas.

É uma covardia manter esse rapaz em atividade sem força-lo a um tratamento.

Zinho e o Flamengo deveriam trazer Adriano para passar dois ou três dias conversando em São Paulo com especialistas como Ronaldo Laranjeira e Dartiu Xavier.

Laranjeira é médico psiquiatra, coordena a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo) e é PhD em Dependência Química na Inglaterra.

Xavier é diretor de um dos criadores do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes, o Proad, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

São, provavelmente, os dois maiores especialistas em dependência de álcool do País e do mundo.

Eles iriam fazer muito bem a Adriano.

E ensinar a Zinho e ao Flamengo que o problema do Imperador não se resolve apenas com essa “força” que cartolas e jogadores desejam dar ao camarada, na linha “mas ele também tem que querer”, como se o problema fosse moral ou de auto-ajuda, porque isso isoladamente quase nunca resolve nada.

Alcoolismo não é vagabundagem, fraqueza ou desvio de caráter.

O pai, o tio ou o vizinho que tenta sozinho para de beber oceanos por dia, aquele cidadão que você encontra no boteco às sete da manhã, vermelho, macambúzio, abatido, tomando uma com cara de quem já tinha se destruído de cana até três horas atrás, enquanto você mata sua média com pão e manteiga, não é um cretino, um masoquista, um sofredor tarado, um maluco que ama sofrer.

Ele é um doente químico, um dependente, um viciado, um cara que perde todas as batalhas para a bebida, todos os dias, por falta de orientação de especialistas corretos e seguros.

Por tudo o que se disse, o alcoolismo é uma doença que acaba com corpo, implode a carreira, queima o filme do doente, atrai preconceito de desinformados, só piora com a continuação do consumo.

Tudo isso e, como se não bastasse, mais um pouco do pior dos mundos: é uma doença que ainda não tem cura.

Não vai embora, junto com o seu sofrimento, após cinco dias de tratamento com um anti-inflamatório de oito em oito horas.

Por isso, a suprema maioria dos alcoolistas faz como Adriano: simplesmente não assume a doença. E, não assumindo, não cuida dela como se deve.

Adriano precisa de remédios e terapias corretos e apropriados, indicados por gente do ramo.

E de não voltar a beber.

Mesmo porque, como se diz ironicamente no meio, nenhum alcoólatra tem problema em parar de beber: toda vez que chapa, ou seja, tomba de porre, ele para. O problema é que, assim que o corpo dá mostras de suportar algo novamente, ele volta...

Assim, o problema de Adriano - como o de todos os alcoolistas - não é parar, mas de não voltar a beber.

Mesmo tratado corretamente ele terá recaídas, várias talvez, mas com bons especialistas poderá salvar o resto de carreira e a vida.

Ele só tem esta única saída para salvar carreira e vida: assumir o alcoolismo como doença e tratá-lo como tal.

Mas, para isso, precisa assumir - e ser apoiado nesta atitude por quem supostamente o ama ou ao menos o quer bem, comunidade do Flamengo incluída.

Enquanto não aprendem isso, ele, os amigos que o protegem e o clube só contribuem para que ele, aos poucos, agonize e destrua sua dignidade em praça pública, diante da ignorância técnica de todos.

Sem um tratamento específico e sério, essas psicologias motivacionais baratas comuns no universo da bola, a tal "força" dos amigos, o empurrão do tal grupo e as supostas ações de ajuda do Flamengo não adiantarão de nada.

Ao contrário: só trarão prejuízos, adiando a aplicação do verdadeiro "remédio" para a situação e dando a Adriano, enquanto isso, chances e chances de se afundar de vez.

Agora Zinho e Flamengo, tenham certeza: do jeito que a coisa está sendo tocada (ou não tocada), Adriano ainda dará muitos "no shows" e mandará inúmeros torpedos com "segura essa e mais essa para mim".

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