13 janeiro 2013

A escalada do alcoolismo na terceira idade


A ESCALADA DO ALCOOLISMO NA TERCEIRA IDADE

                             Reunião dos Alcoólicos Anônimos na Z.Leste de SP
Aposentadoria e solidão fazem idosos se socorrer no álcool. Mas não faltam histórias de superação


O alcoolismo sempre foi um problema difícil de ser enfrentado em  todas as fases, mas pesquisas revelam que na terceira idade as dificuldades se tornam ainda maiores. Para piorar, a dependência da bebida também vem aumentando nessa população.
De acordo com a ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas), as dificuldades nessa faixa etária começam no diagnóstico. Isso porque os sintomas do alcoolismo podem ser confundidos com outras doenças da idade, como demência, depressão e até a solidão, o que faz com que os médicos e a família demorem mais a detectá-los.
Entre as causas do problema, está a aposentadoria, apontada nos estudos como um fator que empurra os idosos para as doses a mais. Foi assim com Luís Rodrigues. Ele conta que não conseguia ficar em casa quando se aposentou. Passou a brigar muito com a mulher e a se sentir sozinho. Para arrumar o que fazer, começou a frequentar o bar. “Eu bebia e me sentia mais calmo”, conta o aposentado.
Quando percebeu, Luís estava deixando a família, os filhos e os amigos mais antigos para ficar com aqueles que o acompanhavam nos botecos. “Eu pensava que a bebida não me atrapalhava, que quem estava errado não era eu e sim os outros”, conta Luís. “O pior do alcoolismo é que vamos do estado de euforia para a depressão e não percebemos que estamos doentes.”
Segundo Larriany Giglio, psiquiatra da Clínica Novo Mundo, os idosos são mais vulneráveis à bebida, pois o metabolismo é mais lento e o fígado, órgãoresponsável por processar o álcool, sofre uma redução com o passar dos anos. “Os idosos apresentam riscos maiores dos efeitos adversos, mesmo em doses relativamente baixas. Isso pode causar a conhecida hepatite alcoólica e a temida cirrose”, afirma a médica.
Omar Jaluul, geriatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, chama atenção para o fato de os idosos, geralmente, tomarem remédios. “Misturar álcool com medicamentos é muito perigoso em qualquer idade e muito mais na avançada. Os riscos de depressão, hipertensão e perda de memória se tornam muito maiores.”
Omar também diz que o idoso tende a ficar embriagado mais rapidamente, mesmo ao ingerir doses pequenas. “E eles bebem de forma muito rápida, sempre sozinhos, perdem o apetite e ficam muito mais irritados”, conta o especialista.
“Comecei a beber como todo mundo. Bebia socialmente, mas com o tempo isso virou rotina e afetou a minha vida”, conta José Pereira, que está sem beber há dez anos.
Omar Jaluul também diz que várias consequências do álcool são ainda mais graves para o idoso. “Há mais riscos de acidentes, inclusive de trânsito.”
O especialista explica que o alcoolismo pode ser uma herança familiar mas, no caso dos mais velhos, a principal causa é, sem dúvida, de fundo psicológico. “O álcool funciona como tranquilizador para medos, ansiedades e frustrações”, afirma Omar. “Por isso, a abordagem psicológica e a terapia ocupacional são muito eficientes no tratamento. E, de todas as ajudas, o apoio da família é a mais importante.” 
 
A família também precisa de ajuda
Além do alcoólatra, a família toda sofre e precisa de ajuda para  entender o que se passa com o dependente e aprender a lidar com a situação.  Para isso, foi criado o Grupo de Familiares AL-ANON (Grupo de Familiares dos Alcoólicos Anônimos). Funciona como o AA (Alcoólicos Anônimos), mas com reuniões entre pais, filhos,  cônjuges, namorados e amigos próximos do viciado.
Marisa Lopez, mulher de Luís Rodrigues, advogada, mãe de  três filhos adultos, é uma das frequentadoras do  AL-ANON. “Meu marido nunca foi agressivo, mas ele sumia, bebia muito e não admitia que estava doente. Dizia que era normal, sem perceber que aquilo estava afetando a nossa vida”, conta ela. “Por duas vezes, ele saiu de casa e foi morar com um amigo. Da última, há dez anos, desapareceu por dez dias. Quando o encontramos, ele estava péssimo. Eu e um dos nossos filhos o levamos para uma clínica. Foi lá que ele passou a frequentar as reuniões do AA e também me falaram do AL-ANON.”
As reuniões do  AA e do AL-ANON costumam acontecer simultaneamente, no mesmo local, o que possibilita a troca de experiências entre várias pessoas. “Um aprende com a experiência do outro. Foi importante entender  que o alcoolismo não era um problema só  da minha  família.”
A advogada também conta que as reuniões  a ajudaram a  retomar a vida social. “Quando o Luís começou a beber eu me afastei,  preferi não sair mais de casa, fiquei com vergonha de mostrar nossa situação até para as pessoas das nossas  famílias. Muita gente achava que ele fazia aquilo por querer e poderia parar quando quisesse. Foi difícil! No grupo, eu consegui a coragem de enfrentar a doença ao lado do Luís.”
Os grupos têm o acompanhamento de profissionais da área da saúde e de voluntários. Marisa, depois de uma década ali, compartilha sua história com as famílias que vão chegando, na esperança de ajudá-las. “Posso mostrar a elas que o meu marido se recuperou”, conta.
O AL–ANON e o AA são associações sem fins lucrativos e podem ser frequentadas sem custo. As reuniões acontecem em todo o Brasil e você pode ver o endereço mais próximo no  site:http://alcoolicosanonimos.org.br
Como funciona /Nas reuniões do AA e do AL-ANON , os presentes são convidados a contar para todos como conseguiram passar pelos problemas do alcoolismo. Como o vício é considerado incurável, eles começam dizendo que estão livres dele só por aquele dia – o  lema mais importante do AA é:  “não vou beber só por hoje” . As reuniões do AA e do AL-ANON  acontecem em salas diferentes, para não deixar ninguém constrangido.  A regra é: o que se ouve ali não se comenta em nenhum outro lugar.
fonte : Diário de S.Paulo




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