11 março 2013

Não sabe mas em 20 anos vai morrer de tanto beber ...


Ele nem faz ideia, mas em 20 anos vai morrer de alcoolismo. Conheça a história de um cara chamado Eduardo

Eduardo não sabe, mas em 20 anos vai morrer de tanto beber. Com o passar do tempo, a doença se tornará evidente, mas por enquanto ele não tem ideia de que seja vítima do alcoolismo. Se às vezes exagera, nosso amigo ainda não tem maiores problemas com a bebida. Aos 32 anos, trabalha, paga suas contas, namora, tem planos para o futuro. Alguns indícios de que algo possa estar errado, porém, já começam a aparecer.
A começar pelo hábito de ficar bêbado pelo menos uma vez por semana, de dirigir o carro embriagado e de se esquecer de parte das coisas que fez na balada. Eduardo bebe rápido, monitora o garçom para não demorar de copo vazio, gosta de fazer um “esquenta” antes da balada e, nos últimos tempos, inventou de beber sozinho em casa.
Aos poucos, os programas viraram só desculpa para o consumo da cerveja, sua bebida de estimação: o pôquer com os amigos, o jogo de futebol, o churrasco de fim de semana. Não é para menos, ele pensa. Trabalha muito, anda estressado, e o álcool o relaxa, solta as amarras de sua personalidade introspectiva. Que mal há nisso? Ele não tem tremedeiras, não bebe todo dia, não dá vexame. Até já ficou uns tempos sem beber para provar à namorada que era capaz.
As coisas parecem estar sob controle, mas Eduardo está só no meio do caminho de uma doença traiçoeira. Com mais duas décadas de copo, os problemas decorrentes do alcoolismo terão selado seu destino: relacionamentos desfeitos, demissões, acidentes e, por fim, a cirrose hepática que lhe ceifará a vida.
Aos milhares 
Eduardo é um personagem fictício, claro. Ao mesmo tempo, é muito real: você certamente conhece alguém como ele. Segundo a Secretaria Nacional Antidrogas, algo em torno de 12% da população preenche os critérios para a dependência de álcool. Deste total, dois terços jamais receberam o diagnóstico.
Só em Ribeirão, portanto, 50 mil pessoas têm (ou terão) problemas sérios com álcool sem hoje se dar conta disso. Como Eduardo, ainda podem não sofrer as consequências mais graves do alcoolismo, mas já bebem de um modo diferente de quem não tem o problema. E o que é beber diferente?
“A lógica da dependência é o estreitamento de repertório. A pessoa tem um monte de coisas que pode usar diante de situações estressantes, mas decide usar sempre a mesma, no caso, a bebida”, diz o psicanalista Emmanuel Mello. “Quando está estressada, ela bebe. Quando está feliz, bebe. E, quando bebeu, bebe também, porque se sente culpada”, completa.
A psiquiatra Luciana Furini Amaral, que atende dependentes no Caps-ad (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas), cita como indício do uso nocivo do álcool o padrão de consumo em “binge”. O termo em inglês define a prática de beber para ficar bêbado, com volumes acima de cinco doses. “A bebida é associada à confraternização, mas infelizmente nem todos conseguem ter a mesma medida”, afirma.
João Maria Corrêa Filho, médico do Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo), alerta para a famosa “tolerância” do alcoólatra em relação à bebida, isto é, a resistência crescente ao álcool e o gradativo aumento do volume ingerido. “A pessoa gasta mais tempo bebendo e começa a perder o controle sobre a quantidade que inicialmente planejou. Sai de casa e diz ‘vou tomar só dois chopes, mas chega lá e toma muito mais”, ilustra.
Na Classificação Internacional de Doenças (CID), o alcoolismo é definido como doença crônica, que acompanha o doente por toda a vida. Caracteriza-se pela falta de controle sobre a bebida. O alcoólatra não consegue controlar o volume ingerido, não consegue deixar de beber e nega a si mesmo ter o problema.
Esta última particularidade é cruel porque não há exame que identifique o alcoolismo. O tratamento dependerá do reconhecimento do problema pelo próprio doente, que precisa encarar o cenário que agora lhe parece insuportável: o de uma vida sem a bebida.


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