25 abril 2015

A AGONIA DA INSÔNIA DE UM ALCOÓLATRA


Como eram longas, as noites de insônia. Longas noites indormidas. O estômago embrulhado. A sede. Levantar. Abrir a geladeira. Tomar um copo de leite. Voltar, deitar, rolara na cama e continuar desperto. Ver o último filme de televisão sem assisti-lo. Ó noites longas, sem fim. Quantas vezes, nessas noites intermináveis, desejei morrer? Mas até a morte era avara comigo naquelas infindáveis noites de insônia e ressaca. Toda a família dormia. Todos os canais de televisão já tinham encerrado as suas programações. Ligava o rádio. Não conseguia me ligar na música. Um locutor falava coisas imbecis para os notívagos. O corpo cansado pedia repouso. Mas o sono não vinha. Fechava os olhos. Assumia a atitude de quem dorme. Respirava fundo,. Tentava enganar-me. Fingia dormir. Mas o sono fugia. Procurava relembrar o itinerário da última bebedeira. O primeiro copo de cerveja. Os amigos. A conversa inicial, o garçon, o tira-gosto. E, de repente, a memória falhava. Já não lembrava nada. Tinha entrado em “apagamento” Não sabia por onde tinha andado, como tinha voltado para casa, com quem tinha conversado, o que tinha dito ou feito. Nada. Tudo era uma grande interrogação. Enchia-me de medo. O que teria feito? Onde teria estado? Teria perdido mais um amigo ou conquistado um inimigo? A quem teria ficado devendo? Abria um livro. Tentava ler. Os olhos passeavam pelas letras simetricamente enfileiradas mas a mente não digeria as idéias. As letras pareciam um imenso exército de soldados minúsculos. Aqui e ali algumas maiúsculas. Eram os comandantes, às vezes eles se misturavam se embaralhavam. A página se enchia de manchas claras e escuras. O exército liliputiano estava guerreando. Os olhos ardiam. Fechava o livro. Examinava a roupa usada na véspera. Estava suja, amarrotada e mal cheirosa. Parecia que tinha estado em algum chiqueiro. Não havia dinheiro na carteira. Vários cheques tinham sido destacados do talão. Não havia anotado os valores dos cheques nem sabia a quem os tinha entregue. A boca amargava. Sentia náuseas. Queria vomitar, mas não conseguia. Ia ao sanitário. As fezes queimavam. Acendia um cigarro atrás do outro. A garganta, inflamada, doía. E o sono cada vez mais longe. O corpo tremia. A cabeça rodava. Apoderava-se de mim um insuportável sentimento de culpa. E a noite passando vagarosamente, com calma, sem pressa, aos poucos, machucando, batendo, castigando, matando-me, minuto a minuto, segundo a segundo de desespero e de vergonha. Como eram tristes, terrivelmente tristes, aquelas noites que nunca acabavam. Noites angustiadas, intranquilas, cheias de temores. Desesperadas madrugadas em busca de uma aurora sem esperança. Lívido amanhecer com sabor de crepúsculo. Encontro de um novo dia, alvorecer sombrio de novas bebedeiras. E a minha consciência me acusando, reclamando, apontando, me endoidando. Numa noite de insônia, ninguém pode fugir da própria consciência. A mão amiga de A.A. devolveu-me o direito de dormir. Mostrou-me nova maneira de viver. Sem álcool, sem ressaca, sem desespero. Uma vida plena, de encontro diário comigo mesmo em paz com a minha consciência.
Fonte : Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos

Fonte : www.facebook.com/vencendooalcoolismo.com.br

2 comentários:

  1. E como é doloroso isso, a vergonha de sí próprio, angustia que corroi a alma...

    ResponderExcluir